Há alguns dias, o fundo imobiliário Mérito Desenvolvimento I (MFII11) anunciou a compra de um terreno de 1.500 m² na Vila Ré, Zona Leste de São Paulo, para construir 240 unidades residenciais. Detalhe importante: o fundo tem concentrado 100% de seus lançamentos no MCMV, o que sugere que este projeto seguirá a mesma linha.
Se você acompanha a ConstruFoco, sabe que venho falando sobre a ascensão dos fundos imobiliários, o protagonismo do MCMV e a escassez de funding tradicional. Essa notícia mostra esses três movimentos acontecendo simultaneamente em uma única transação.
Hoje, queria analisar junto com você o que isso significa…
Os números da operação e o que chama atenção nesse movimento
Segundo o comunicado ao mercado, estudos de viabilidade indicam a construção de um edifício multifamiliar residencial com 240 unidades. A Mérito Investimentos estima VGV de aproximadamente R$ 58 milhões, mas informou que não espera impactos relevantes nos rendimentos no curto prazo.
O fundo tem mais de 32,4 mil cotistas na B3 e vem concentrando sua estratégia em empreendimentos residenciais ligados ao MCMV. Em 2025, lançou quatro projetos que somaram mais de R$ 300 milhões em VGV – 693 lotes e 797 apartamentos, todos enquadrados no programa. Para 2026, a expectativa é alcançar até R$ 500 milhões em lançamentos.
Três pontos merecem reflexão:
#1 Fundos imobiliários estão comprando terrenos para desenvolver projetos residenciais
Tradicionalmente, Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) concentravam investimentos em imóveis comerciais prontos ou em desenvolvimento (escritórios, galpões logísticos, shoppings). A entrada no residencial – e especificamente no MCMV – representa uma mudança de estratégia significativa.
Como contextualizamos no artigo sobre os 4 pilares do mercado imobiliário em 2025, o MCMV representou 85,9% dos lançamentos no ano passado. Esse volume e a previsibilidade do programa parecem ter atraído o apetite de investidores institucionais.
#2 MCMV virou ativo de interesse para mercado de capitais
A escolha deliberada da Mérito por projetos 100% MCMV não é casual. O programa oferece algumas vantagens do ponto de vista de funding, como acesso a recursos do FGTS, demanda estrutural garantida e enquadramento em faixas de renda específicas que facilitam a modelagem de retorno.
Como mostramos neste artigo, 86% das incorporadoras relatam maior dificuldade para conseguir financiamento bancário.

Enquanto isso, fundos imobiliários têm capital disponível e parecem encontrar no MCMV uma combinação interessante de escala, previsibilidade e retorno.
#3 Mercado de capitais ultrapassou SBPE como principal fonte de crédito imobiliário
Por fim, como detalhamos no artigo sobre a nova era do crédito imobiliário no Brasil, o estoque de crédito do mercado de capitais atingiu R$ 832 bilhões em 2024, ultrapassando pela primeira vez o SBPE. Essa operação da Mérito é mais um exemplo concreto dessa transformação estrutural.
O que isso significa para quem constrói
Com fundos imobiliários comprando terrenos para desenvolver projetos MCMV, algumas questões práticas entram em debate:
1) Como um FII estrutura a viabilidade de um projeto residencial?
Diferente de uma incorporadora que pode ajustar premissas ao longo do desenvolvimento, um fundo precisa apresentar viabilidade clara para seus cotistas desde o início. Isso exige orçamento detalhado, cronograma físico-financeiro validado e margem de segurança nas premissas.
2) Qual é o padrão de governança que fundos exigem?
Como destaquei na ConstruFoco #48 sobre fundos dominando grandes negócios, o mercado de capitais compra previsibilidade. Isso significa que todo projeto precisa ter documentação impecável, controles de custos rigorosos e capacidade de demonstrar aderência ao orçamento original.
3) Incorporadoras tradicionais conseguem competir nesse cenário?
A resposta depende do nível de profissionalização.
Como contamos aqui, 57% das incorporadoras nunca usaram o mercado de capitais como fonte de recursos. Empresas que não desenvolverem governança adequada podem enfrentar dificuldades crescentes para acessar capital em um mercado onde fundos institucionais estão cada vez mais ativos.

Por que MCMV exige controle de custos ainda mais rigoroso
Um ponto que muita gente não percebe é que construir para MCMV com capital de fundo imobiliário é completamente diferente de construir com funding bancário tradicional.
O MCMV tem teto de preço definido por faixa, margem apertada e enquadramento condicionado a especificações técnicas. Qualquer erro de orçamento – seja subestimar fundações em terreno complexo, esquecer custos indiretos ou não prever variações de insumos – compromete diretamente a viabilidade. E quando você está prestando contas a 32 mil cotistas via B3, não há espaço para improvisos.
Como a Celere ajuda nesse contexto
Na Celere, estruturamos orçamentos paramétricos e orçamentos analíticos detalhados que atendem ao padrão de governança exigido por fundos institucionais e mercado de capitais.
Além de estimar custos precisos, é nossa missão garantir previsibilidade, rastreabilidade e controle ao longo de todo o ciclo de obra. Exatamente o que investidores institucionais exigem antes de alocar capital.
Quer entender como preparar seus projetos para esse novo mercado? Entre em contato com a gente.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO
Foto de destaque: Tierra Mallorca na Unsplash