Importante: não vou falar aqui sobre investimento em ações – esse não é o foco da ConstruFoco. O que me interessa é entender o que esses dados revelam sobre a dinâmica do mercado de construção como um todo.
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Por que isso importa (além das ações)
A valorização dessas empresas é um termômetro de onde o mercado enxerga oportunidades reais no setor de construção.
O BTG projeta que elas vão distribuir entre 10% e 13% do valor das ações em dividendos aos acionistas. Em outras palavras: essas empresas geram muito caixa. Não é promessa de crescimento futuro, é lucro real, líquido, sendo distribuído. Quando fala em “margens elevadas” e “forte demanda”, está confirmando que existe um nicho específico prosperando, enquanto outros segmentos enfrentam dificuldades. E qual é esse nicho? O Minha Casa, Minha Vida.A explicação estrutural
O relatório do BTG usa uma expressão que considero adequada: “encontrando resiliência em um lugar improvável”. Os analistas argumentam que o setor de baixa renda brasileiro não se encaixa no estereótipo cíclico do mercado imobiliário, pois combina demanda resiliente, apoio governamental consistente e déficit estrutural de moradia. E os números comprovam essa tese.Enquanto o credit crunch atinge bancos tradicionais, o orçamento do MCMV saltou de R$ 65 bilhões em 2022 para R$ 152 bilhões em 2025. O FGTS registra influxos líquidos de R$ 18 bilhões no ano, impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido.
Mais interessante ainda: a Selic alta favorece o FGTS, já que sua carteira é quase inteiramente investida em títulos públicos. Ou seja, o mesmo cenário que prejudica o funding privado fortalece o funding do MCMV.
Além disso, a acessibilidade está no melhor momento histórico: o compromisso de renda da primeira parcela caiu para ~23% (vs. média de 28%). Não é só que tem dinheiro – é que as famílias conseguem efetivamente pagar. Por fim, a criação da Faixa 4 merece destaque especial. Com orçamento de R$ 30 bilhões (metade do Fundo Social do Pré-Sal, metade da CEF), ela trouxe famílias com renda até R$ 12 mil para dentro do programa, com teto de financiamento de R$ 500 mil. E as projeções indicam que o Fundo Social pode atingir R$ 90 bilhões anuais na maturidade – 6 vezes o orçamento atual da Faixa 4, sinalizando potencial de expansão futura.Leia também: O real impacto da Faixa 4 do MCMV
O que isso revela sobre o mercado
Vejo aqui três lições que vão além do desempenho de ações:
1) Segmentação é tudo – Enquanto incorporadoras de médio e alto padrão enfrentam dificuldades severas de funding, quem consegue se posicionar no MCMV tem acesso a capital estruturado e previsível.
2) Execução importa mais que nunca – O relatório divide as empresas em dois grupos: as “com bom carrego” (baixo endividamento, margens altas) e as de “maior risco/retorno” (mais alavancadas, mas em recuperação). A diferença não está no segmento, mas na qualidade da gestão.
3) Governança virou vantagem competitiva – Empresas de capital aberto precisam demonstrar números consistentes trimestralmente. Isso as força a ter processos, controles e previsibilidade que muitas empresas fechadas ainda não desenvolveram.
A conexão com o que discutimos antes
Lembra que na última edição falamos sobre como o mercado de capitais exige “governança robusta, números precisos, transparência consistente”? A valorização dessas construtoras ilustra exatamente esse ponto. Não foi apenas sorte ou timing de mercado. Foi a combinação de três fatores que levou a essa alta. São eles: posicionamento no segmento certo (MCMV com funding estruturado), execução consistente ao longo dos anos e capacidade de reportar resultados de forma transparente.O BTG resume bem essa dinâmica: se houver mudança de governo, as ações tendem a subir pela expectativa de políticas favoráveis. Se o governo continuar o mesmo, os lucros crescem pela continuidade do programa. Em qualquer cenário, o setor ganha.
Essa situação – onde você ganha independentemente do que aconteça – é rara no mercado imobiliário. E explica por que investidores estão dispostos a pagar mais por empresas com boa execução, mesmo num cenário macroeconômico desafiador.E para quem não está listado na bolsa?
A maioria das construtoras e incorporadoras não é de capital aberto e nunca será. Mas as lições permanecem válidas.Se você atua ou pretende atuar no MCMV, precisa entender que mesmo com funding garantido pelo FGTS, apenas quem executa com disciplina consegue margens saudáveis. O programa tem tetos de preço apertados e qualquer desvio orçamentário compromete rapidamente a viabilidade.
Se está em outros segmentos, a necessidade de demonstrar números sólidos para acessar funding (seja bancário ou via mercado de capitais) só aumentou. Ter processos estruturados e orçamentos confiáveis passou a ser um pré-requisito básico para competir.Você tem os processos que o mercado exige?
Num cenário onde empresas bem geridas se valorizam 116% enquanto outras lutam para viabilizar projetos, a diferença está na capacidade de demonstrar previsibilidade.Você consegue apresentar orçamentos com nível de detalhamento e confiabilidade comparável ao que essas construtoras de capital aberto precisam entregar trimestralmente? Tem controle de custos que permite identificar desvios antes que comprometam as margens? Consegue projetar seu fluxo de caixa com precisão suficiente para negociar com investidores?
A Celere existe para ajudar incorporadores e construtores de todos os portes a desenvolverem esse nível de rigor e previsibilidade.
Um exemplo é o trabalho que desenvolvemos com a Dakari, que precisava de orçamentos com credibilidade absoluta para atrair investidores num projeto de bilhões. Ou a Construtora Mirman, que manteve margem de 25% mesmo em cenário adverso por meio de controle rigoroso.
Quer que sua empresa esteja entre aquelas que o mercado enxerga como investimento seguro, mesmo em tempos desafiadores? Entre em contato e vamos conversar.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO