Mercado celebra crescimento com MCMV, mas enfrenta desafio duplo: crédito escasso para produção e juros em alta para consumidores
A construção civil brasileira fechou o primeiro semestre de 2025 com avanços importantes, impulsionados principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida e pela ampliação dos lançamentos e vendas de imóveis populares. O crescimento da indústria do cimento e a expectativa positiva para o mercado de materiais de construção reforçam esse cenário. Por outro lado, o crédito para a produção imobiliária enfrenta forte retração, com bancos reduzindo quase pela metade os financiamentos destinados a construtoras, o que gera preocupação sobre a sustentabilidade do ritmo de lançamentos e obras. Além disso, o custo do crédito para aquisição segue em alta, afetando a demanda da classe média. Neste Giro de Notícias, detalhamos os principais indicadores, desafios e perspectivas para os próximos meses, com dados do mercado, análises de entidades representativas e movimentações financeiras que impactam o segmento.#1 Indústria do cimento cresce 3,5% no primeiro semestre
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Foto de Haneen Krimly na Unsplash[/caption]
A indústria brasileira de cimento registrou um crescimento de 3,5% no primeiro semestre de 2025, totalizando 32 milhões de toneladas comercializadas.
O mês de junho, no entanto, apresentou um recuo pontual de 1,7% nas vendas em relação ao mesmo mês de 2024, com 5,4 milhões de toneladas comercializadas. Apesar disso, o indicador de despacho por dia útil teve alta de 0,5% na comparação anual e de 5% em relação à média do primeiro semestre do ano passado, sinalizando estabilidade no ritmo diário de consumo.
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), o desempenho positivo no acumulado do ano foi impulsionado pelo bom desempenho do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e por um mercado de trabalho ainda aquecido, que sustentou a demanda no setor de edificações.
No primeiro trimestre, o MCMV respondeu por mais da metade dos lançamentos residenciais e registrou aumento de 40,9% nas vendas frente ao mesmo período do ano passado. A inclusão de uma nova faixa de renda ampliou o acesso à moradia e fortaleceu a confiança no setor.Leia também: MCMV agora atende a classe média. Como isso impacta o seu negócio?
Para o segundo semestre, porém, o SNIC projeta um cenário mais desafiador. Entre os principais obstáculos estão:- Escassez de mão de obra qualificada;
- Nível elevado da taxa de juros (Selic em 15%);
- Crescimento das aquisições de imóveis usados com recursos do MCMV – tendência que reduz a demanda por novas construções;
- Aumento dos custos de produção, que compromete a viabilidade de novos empreendimentos.
Leia também: MCMV de usados dispara e gera tensão no setor
#2 Faixa 4 do MCMV impulsiona lançamentos e aquece o mercado imobiliário no 2º trimestre
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As incorporadoras que atuam no segmento de imóveis de até R$ 500 mil ampliaram os lançamentos e as vendas no segundo trimestre de 2025, impulsionadas pelo fortalecimento do MCMV, especialmente com a criação da nova faixa 4.
Juntas, MRV, Direcional, Cury, Plano & Plano e Tenda lançaram R$ 9 bilhões em novos empreendimentos, alta de 28,3% sobre o mesmo período do ano passado. As vendas líquidas chegaram a R$ 8,2 bilhões, com crescimento de 12,3%. A faixa 4, voltada a famílias com renda mensal entre R$ 8,6 mil e R$ 12 mil, entrou em vigor em maio e ampliou o acesso ao crédito habitacional com juros subsidiados de 10,5% ao ano. Segundo executivos das empresas, a nova modalidade trouxe liquidez para produtos que antes enfrentavam dificuldade de comercialização. A MRV, por exemplo, já tem 20% de seus lançamentos enquadrados nessa faixa. Na Cury, 94% dos projetos passaram a ser elegíveis ao programa, ante 70% anteriormente. De acordo com levantamento do jornal Valor Econômico, os lançamentos no MCMV somaram R$ 9,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 28%, e R$ 17,2 bilhões no acumulado do semestre, avanço de 43%. Já as vendas líquidas foram de R$ 7,96 bilhões no trimestre e R$ 15 bilhões no semestre, crescimentos de 10% e 14%, respectivamente.Apesar do bom momento para o MCMV, analistas alertam que o setor de média e alta renda segue pressionado por juros elevados, dificuldade de financiamento à produção e perda de poder de compra do consumidor.
Ainda segundo o Valor, um grupo de dez incorporadoras desse perfil aumentou os lançamentos em 67% no trimestre e 58% no semestre. As vendas cresceram 23% e 13%, respectivamente. A Cyrela se destacou com a linha Vivaz, voltada à habitação popular, que respondeu por 40% de suas vendas no primeiro semestre. A Moura Dubeux também superou as expectativas do mercado com lançamentos em condomínios fechados e projetos diferenciados. [caption id="attachment_10603" align="aligncenter" width="1000"]
Fonte: Valor Econômico[/caption]
De acordo com o BTG Pactual, o acesso ao crédito está mais restrito, e o cenário só deve melhorar com uma eventual sinalização de queda na Selic. Diante disso, empresas com maior solidez financeira, como a Cyrela, devem seguir concentrando participação de mercado no segundo semestre.
Leia também: O real impacto da Faixa 4 do MCMV
#3 Indústria de materiais de construção projeta mês positivo
A indústria de materiais de construção projeta um desempenho positivo para o mês de junho, segundo a última edição do Termômetro da Abramat, divulgada em 10 de julho. A pesquisa de opinião, realizada com lideranças das empresas associadas, apontou que 38% esperam um bom resultado nas vendas do mês. Outros 29% preveem desempenho regular, enquanto 14% estimam vendas ruins e 19%, muito ruins. Para julho, as expectativas seguem em linha com o mês anterior. Segundo a Abramat, 29% das empresas projetam um bom desempenho, 57% acreditam em vendas regulares e apenas 15% esperam resultados ruins ou muito ruins. Os dados indicam uma estabilidade nas projeções, com leve viés positivo, mas sem sinais de retomada mais vigorosa. A sondagem também mediu a confiança do setor em relação às ações do governo federal para os próximos 12 meses. Apenas 5% dos entrevistados se disseram otimistas (mesmo patamar registrado em maio e 8 pontos percentuais abaixo do observado em junho de 2024). O número reflete um ambiente de cautela quanto ao papel do poder público no fomento ao setor.#4 Bancos reduzem quase pela metade o financiamento à produção imobiliária em 2025
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Apesar do bom desempenho de vendas e lançamentos nos primeiros meses de 2025, o setor imobiliário acendeu o alerta para a redução no financiamento à produção.
Segundo a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), os bancos destinaram 49% menos recursos às construtoras entre janeiro e abril deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024. Se a tendência se mantiver, a oferta total pode cair de R$ 50 bilhões em 2024 para R$ 20 bilhões ao fim de 2025.
A principal razão, segundo esta reportagem da Folha de S.Paulo produzida com base em dados do Banco Central, é a sangria contínua da caderneta de poupança, principal fonte de funding do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). A matéria cita que, apenas em maio, os resgates líquidos superaram R$ 10 bilhões. Desde o início de 2024, as saídas acumulam mais de R$ 100 bilhões, pressionando o volume disponível para financiar novos empreendimentos, especialmente os voltados à classe média. A Caixa Econômica Federal, principal agente financiador do setor, contesta a leitura de retração e afirma que registrou crescimento na concessão de crédito à produção no primeiro trimestre de 2025, com uso de recursos livres, FGTS e SBPE. Ainda assim, entidades como a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) defendem que a tendência de escassez persiste, especialmente entre bancos privados, e cobram alternativas para manter o ritmo de lançamentos. Entre as soluções propostas estão o fortalecimento de instrumentos como LCIs, CRIs e FIIs (que somavam R$ 1,05 trilhão em março) e a preservação de incentivos como a isenção de imposto sobre LCIs para pessoas físicas. A Abrainc também defende medidas estruturais, como a criação de uma LCI institucional, o aumento da exigibilidade da poupança de 65% para 70% e o fim do saque-aniversário do FGTS. Segundo a CBIC, não há “bala de prata” para o financiamento habitacional, mas o setor precisa agir para evitar um estrangulamento da produção no médio prazo.Leia também: Como captar recursos financeiros para viabilizar empreendimentos na construção civil
#5 ConstruCarta aponta ineficiências no crédito imobiliário para produção
A mais recente edição do ConstruCarta – documento produzido pelo SindusCon-SP – também analisa a situação do crédito imobiliário no Brasil. Na avaliação de Cláudia Magalhães, que assina a carta, a parcela de compradores de imóveis fora do programa Minha Casa, Minha Vida enfrenta condições cada vez mais difíceis para acessar crédito imobiliário. Neste sentido, ela destaca que, entre março de 2024 e março de 2025, a taxa média de juros do SFH (Sistema Financeiro da Habitação) para pessoas físicas subiu de 10,68% para 12,5% ao ano, impactando diretamente a capacidade de compra. Além disso, Cláudia aponta que a situação é ainda mais desafiadora para as empresas do setor. “Os agentes financeiros têm optado por fazer o financiamento à produção com recursos captados no mercado, destinando os recursos do SFH para as pessoas físicas. De acordo com a Abecip, nos primeiros cinco meses de 2025, o volume de concessões caiu 4,3% em relação ao mesmo intervalo de 2024. No entanto, enquanto o crédito destinado à aquisição cresceu 11,3%, o financiamento à produção caiu 54,3%”, revela. Em artigo publicado no Blog do FGV IBRE e citado no ConstruCarta, especialistas ressaltam que o problema central não é a falta de recursos, mas o direcionamento e os custos das fontes disponíveis.“Desde a criação do SFI até os dias de hoje, o mercado já desenvolveu fontes de captação de recursos que hoje representam parcela expressiva do funding total. Como resultado, em dezembro de 2024, o volume total de funding (FGTS, SBPE, CRI, LCI e LIG) alcançou R$ 2,3 trilhões, correspondendo a 20,3% do PIB. Entretanto, as carteiras de crédito imobiliário ainda não equivalem a 11% do PIB. A diferença entre funding e carteira sugere a existência de ineficiências no uso dos recursos captados pelos bancos em termos de oferta de crédito para o setor imobiliário”, avaliam Ana Maria Castelo, Cláudia Magalhães e Iuri Viana, que assinam o artigo.
O ConstruCarta reforça o debate sobre a necessidade de repensar o modelo de financiamento habitacional vigente para garantir que os recursos cheguem de forma mais eficaz à produção imobiliária e viabilizem a construção de novas moradias, especialmente fora das faixas do MCMV.
Leia também: O que é e como funciona o Sistema Financeiro da Habitação (SFH)