Outro dia, li uma análise do SindusCon-SP feita a partir da Reunião de Conjuntura Econômica de agosto com a FGV IBRE, que trazia informações importantes sobre o desempenho da construção no Brasil no primeiro semestre deste ano.
Naquele momento, a estimativa era de crescimento de 0,6% do PIB do setor em relação ao mesmo período de 2025. Depois da publicação, o IBGE divulgou o dado oficial, que apontou que a construção cresceu 1,1% no semestre.
O número ficou um pouco melhor do que o projetado, é verdade. Porém, a leitura de fundo, para mim, não muda tanto. Isso porque os indicadores apresentados na reunião contam uma história cheia de contrastes…
Enquanto o PIB da construção avançou pouco, o emprego no setor cresceu, o rendimento médio aumentou e o consumo de cimento também subiu. Ao mesmo tempo, a produção física de materiais recuou e o volume de vendas no varejo caiu.
O gráfico registra a estimativa disponível na reunião de agosto. Posteriormente, o IBGE confirmou alta de 1,1% no semestre.
No segundo trimestre, inclusive, a construção encolheu 0,4% frente aos três meses anteriores. Ou seja, o setor continua crescendo quando olhamos para o semestre, mas claramente perdeu velocidade.
E isso me leva ao ponto que mais me interessa nesta ConstruFoco: apesar de a atividade ter avançado pouco, os custos continuam correndo em outro ritmo.
Na apresentação do SindusCon-SP e da FGV IBRE, o INCC-DI (Índice Nacional de Custo da Construção: Disponibilidade Interna, apurado ao longo do mês-calendário) acumulava alta de 6,44% em 12 meses até julho. Em São Paulo, chegava a 6,97%.
Além disso, os dados mais recentes mostram que a pressão continua.
Em agosto, o INCC-M (Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado, com coleta de preços entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês de referência) subiu 0,85% e acumulou 6,56% em 12 meses. O componente mão de obra, sozinho, avançou 1,56% no mês.

A comparação entre PIB e índices de custo não é direta, claro. Estamos falando de indicadores diferentes. Mas, para quem está administrando uma obra, a combinação importa: atividade avançando devagar enquanto os custos seguem pressionados significa que a margem não ganha folga automaticamente só porque o setor está crescendo menos.
Mão de obra continua apertando
Outro ponto importante é que, na Sondagem da Construção apresentada na reunião, 37,9% das empresas apontaram a escassez de mão de obra qualificada como um dos fatores que limitam a melhora dos negócios. O custo da mão de obra apareceu logo depois, citado por 24%.

Esse assunto não é novo por aqui.
Em fevereiro, na ConstruFoco #50, falei justamente sobre como a mão de obra vinha ganhando peso nos custos da construção. Também publicamos um artigo sobre gestão de mão de obra com lean construction e, mais recentemente, discutimos como a racionalização construtiva pode reduzir etapas, retrabalho e dependência de equipes maiores.
O que os números de agora mostram é que esse problema não desapareceu.
E tem uma combinação que merece atenção: o emprego cresce, os salários sobem e, ainda assim, quase quatro em cada dez empresas continuam dizendo que falta mão de obra qualificada.
Isso não prova, sozinho, uma piora de produtividade. Mas mostra que simplesmente colocar mais gente no canteiro está longe de ser uma solução fácil.
Se contratar ficou mais caro e encontrar profissionais qualificados continua difícil, produzir melhor com os recursos disponíveis vira proteção de margem.
É aí que planejamento, racionalização e orçamento começam a conversar.
O que isso muda no seu orçamento?
Para mim, o principal risco desse cenário é trabalhar com um orçamento que ainda conta uma história antiga da obra.
Pense em um empreendimento orçado alguns meses atrás. Se a produtividade real ficou abaixo da premissa da composição, se um serviço exige mais horas do que o previsto ou se os salários avançaram mais rápido do que a atualização do orçamento, essa diferença vai aparecer. A questão é quando.
Pode aparecer ainda na contratação, quando há tempo para rever solução, sequência, equipe ou escopo. Ou pode aparecer meses depois, quando boa parte das decisões já virou contrato e a margem começou a desaparecer.
Por isso, em um mercado de crescimento moderado e custos pressionados, eu vejo o orçamento como uma referência que precisa continuar sendo testada.
- Quais serviços estão mais expostos à mão de obra?
- Quais insumos estão avançando acima da média?
- As produtividades utilizadas nas composições continuam aderentes ao que acontece no canteiro?
- O realizado está confirmando o que foi previsto?
São perguntas simples, mas respondê-las cedo muda a capacidade de agir.
Inclusive, falamos disso recentemente na ConstruFoco #77, sobre retrabalho: grande parte do custo que aparece durante a execução nasce de decisões tomadas antes ou de problemas percebidos tarde demais.
Com custo acontece algo parecido. A melhor hora para descobrir que uma premissa estava errada é enquanto ainda existe margem para mudar a decisão.
Crescimento não paga ineficiência
Eu gosto de olhar indicadores de mercado porque eles ajudam a entender para onde estamos indo. Mas um PIB da construção positivo, seja de 0,6%, 1,1% ou 3%, não protege a margem de nenhum empreendimento individual.
Essa proteção acontece na qualidade do orçamento, na produtividade, no planejamento da execução e na rapidez com que desvios são identificados e corrigidos. Ou seja, acontece dentro da empresa.
Na Celere, ajudamos construtoras e incorporadoras justamente a transformar essas variáveis em números que possam ser acompanhados antes e durante a obra. Porque, num cenário em que o setor cresce devagar e os custos continuam andando, não dá para esperar que o mercado resolva a conta; é preciso saber exatamente onde ela pode piorar.
Se você quer revisar o orçamento de uma obra, atualizar premissas de custo ou entender onde estão os maiores riscos de desvio do seu empreendimento, entre em contato. Podemos conversar sobre ele.
Raphael Chelin
CEO
Imagem de destaque: Ivan Henao na Unsplash