Onde nasce o custo do retrabalho [ConstruFoco #77]

Estudo com 359 projetos mostra como o retrabalho pressiona custos e revela que erros de projeto e decisões tardias estão entre suas principais causas.

Por Raphael Chelin Publicado em 09/09/2026 Leitura: 5 min
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Onde nasce o custo do retrabalho [ConstruFoco #77]

Outro dia, durante a minha rodada habitual de leituras sobre o mercado da construção civil brasileira, li uma matéria no portal da revista Grandes Construções que chamou minha atenção.

O título era: "Retrabalho na obra pode representar, em média, 5% do custo total".

Como produtividade, eficiência e custos são temas que me interessam muito (e aparecem com frequência nas nossas conversas por aqui, seja quando falamos de racionalização construtiva, gestão de mão de obra ou acompanhamento de custos), li o texto com atenção. E, como uma parte importante da reportagem se apoiava em uma pesquisa publicada pela American Society of Civil Engineers (ASCE), fui atrás do estudo original para entender melhor de onde vinha esse número.

O artigo é o Measuring the Impact of Rework on Construction Cost Performance, publicado em 2009 no Journal of Construction Engineering and Management. Os pesquisadores analisaram dados de 359 projetos da base do Construction Industry Institute (CII). Por mais que o texto já seja relativamente antigo, encontrei ali uma leitura que, para mim, é mais interessante do que simplesmente repetir que "retrabalho custa 5%".

Os 5% precisam de contexto

O número que aparece na manchete da matéria que eu li vem de uma pesquisa anterior do próprio CII, citada pelos autores, segundo a qual os custos diretos de retrabalho representavam, em média, 5% dos custos de construção.

Já no conjunto de 359 projetos analisado no artigo, o impacto variou bastante conforme o tipo de empreendimento e também conforme quem reportava os dados. Nos projetos reportados pelos proprietários, por exemplo, a média do retrabalho direto ficou em 5,4% quando os projetos foram agrupados por segmento. No recorte de edifícios, ficou em 4,6%.

Mas eu não transformaria nenhum desses percentuais em uma regra de bolso para uma construtora brasileira.

O estudo tem quase duas décadas, foi feito a partir de uma base norte-americana e 66% dos projetos da amostra eram de indústria pesada; edifícios representavam apenas 13%.

Então, para mim, o valor do estudo não está em dizer que toda obra perde exatamente 5% com retrabalho, mas em mostrar que o impacto pode ser relevante e, principalmente, em ajudar a entender de onde ele nasce.

A origem do retrabalho

A origem do retrabalho na construção

Quando os pesquisadores separaram o retrabalho por causa, dois fatores apareceram repetidamente entre os de maior impacto: erros ou omissões de projeto e mudanças solicitadas pelo proprietário.

No recorte de edifícios reportados pelos proprietários, erros e omissões de projeto responderam, em média, por 1,5% do custo da fase de construção. Mudanças do proprietário responderam por outros 1,4%.

Esse dado muda um pouco a conversa.

Quando falamos em retrabalho, é comum imaginar primeiro uma execução malfeita no canteiro. Mas, muitas vezes, o canteiro é apenas o lugar onde o custo aparece. A origem está em uma informação que não chegou, em um projeto que ainda tinha lacunas, em uma decisão tomada tarde ou em uma mudança feita depois que outra etapa já tinha avançado. Ou seja, antes do canteiro.

É exatamente a lógica que aparece na matéria da Grandes Construções. Fechar uma parede antes de testar as instalações ou avançar um revestimento antes do teste de impermeabilização pode dar a sensação de produtividade naquele dia. Mas, se for necessário voltar, quebrar e refazer, o avanço era só aparente.

E faço aqui uma distinção importante: uma mudança de decisão do proprietário não é necessariamente um erro. Pode ser estratégica e fazer sentido para o produto. O problema é não enxergar o custo e o impacto no cronograma quando ela acontece tarde.

Leia também:
Como decisões de projeto viram custo real

A pressa pode ser uma falsa produtividade

Uma coisa que eu sempre penso é que um cronograma agressivo consegue avançar sem atropelar as dependências entre os serviços.

Se uma equipe entra antes de projeto, liberação, teste ou definição estarem resolvidos, você pode até ganhar avanço físico naquele momento, mas corre o risco de comprar esse avanço duas vezes: uma para executar e outra para desfazer e executar de novo.

Por isso, eu não trataria o percentual de retrabalho encontrado em qualquer estudo como uma "gordura aceitável" do orçamento. Retrabalho precisa ser encarado como um sinal para investigar. Neste sentido, estas seriam algumas das perguntas que eu buscaria responder ao identificar a necessidade de um retrabalho:

  • Qual serviço precisou ser refeito? Por quê?
  • A informação estava disponível?
  • Houve mudança de projeto?
  • A sequência estava correta?
  • O problema se repete em outros pavimentos ou empreendimentos?

Se a empresa não conhece o próprio retrabalho e suas causas, os 5% servem apenas como alerta. O número realmente útil é o dela.

Decidir antes custa menos do que corrigir depois

Na Celere, a gente trabalha justamente para antecipar essa conversa.

Um orçamento detalhado ajuda a entender o impacto financeiro das decisões antes que elas cheguem ao canteiro. O planejamento de obras organiza as dependências entre os serviços e mostra o que precisa estar resolvido para cada etapa avançar. E o acompanhamento contínuo de custos permite identificar desvios enquanto ainda existe espaço para agir.

É a mesma lógica que discutimos recentemente no artigo "O papel da racionalização construtiva na eficiência da obra": boa parte da eficiência nasce de decisões de engenharia tomadas cedo o suficiente para ainda caberem no projeto.

Para mim, essa é a principal reflexão que fica da leitura sobre retrabalho.

O custo aparece no canteiro, mas uma parte importante da prevenção começa muito antes dele.

Raphael ChelinSe você quer entender como orçamento, planejamento e acompanhamento podem ajudar a reduzir desvios e proteger a margem da sua obra, entre em contato com a gente. Podemos conversar sobre o seu caso.

Boa semana!

Raphael Chelin
CEO


Imagens: Glenov BrankovicMark Potterton na Unsplash