O papel da racionalização construtiva na eficiência da obra

Entenda o que é racionalização construtiva e como engenharia pré-obra, protótipos e reengenharia ajudam a reduzir etapas, mão de obra e retrabalho

Por Celere Publicado em 27/08/2026 Leitura: 10 min
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O papel da racionalização construtiva na eficiência da obra

Entenda o que é racionalização construtiva e como engenharia pré-obra, protótipos e reengenharia ajudam a reduzir etapas, mão de obra e retrabalho

Em 1998, a primeira obra em que Fabio Giamundo trabalhou como estagiário já reunia fachada pré-fabricada, laje de cubeta, PEX, barramento blindado e drywall. Era o hotel Blue Tree Faria Lima Juscelino, em São Paulo. Quase três décadas depois, parte dessas soluções ainda é recebida como novidade, e algumas continuam enfrentando resistência no mercado.

Fabio Giamundo"Pouca coisa evoluiu de lá para cá", avaliou Fabio, durante a 15ª edição do Incorpod.

A afirmação vem de quem acompanha essas discussões há 27 anos. Engenheiro civil com MBA em Tecnologia e Gestão na Produção de Edifícios pela USP e pós-graduação em Negócios Imobiliários pela FIA, Fabio passou por Inpar, Gafisa e Odebrecht e foi diretor de Engenharia do Grupo Laguna. Hoje, é fundador e CEO da PRIME3 Engenharia e vice-presidente de Tecnologia e Inovação do Sinduscon-PR. Ao longo dessa trajetória, concentrou sua atuação em viabilidade, produtividade, industrialização e racionalização de processos.

Essa experiência acumulada ajuda a desfazer uma associação comum: ao contrário do que muita gente pensa, racionalização construtiva não é sinônimo de obra futurista, nem depende de colocar um robô no canteiro. Pode, claro, envolver sistemas industrializados, modelagem digital e equipamentos, mas também pode nascer de uma mudança simples, como eliminar uma etapa, rever a sequência de um serviço ou escolher uma solução que demande menos pessoas para chegar ao mesmo resultado.

Aliás, uma boa forma de resumir a racionalização construtiva é descrevendo-a como decisões de engenharia sobre como a obra vai ser executada, tomadas cedo o bastante para ainda caberem no projeto. Isso porque o que define uma racionalização é o momento em que a decisão é tomada, muito mais do que o tamanho do investimento.

"Às vezes, uma coisa simples, sem investimento em custo, racionaliza, tira mão de obra e melhora um processo", resume Fabio.

Racionalização construtiva na prática

Essa forma de pensar não surgiu agora na trajetória de Fabio. Na Odebrecht, onde trabalhou com Raphael Chelin, CEO da Celere e um dos apresentadores do Incorpod, as decisões sobre como construir eram antecipadas por um processo formal chamado módulo de engenharia, uma prática de engenharia a montante. Nesse processo, antes da mobilização do canteiro, a equipe estudava alternativas e precisava justificar tecnicamente por que determinada solução deveria avançar.

Como Fabio e Raphael lembraram, esse trabalho envolvia quem projetaria, forneceria e executaria a obra. O futuro gerente do empreendimento, acompanhado por uma equipe de duas pessoas, passava de seis meses a um ano dedicado a esses estudos. A análise começava pela logística do canteiro e percorria todas as disciplinas.

Os dois destacaram que, no pré-módulo, a equipe apresentava as alternativas avaliadas e indicava para qual delas estava tendendo. Depois, no módulo, transformava essa tendência em uma decisão. Ou seja, precisava ratificar a escolha diante de um comitê formado por diretores de engenharia e gerentes de obras de diferentes regiões do país.

O ganho, segundo Fabio, aparecia quando o planejamento encontrava a execução. "Quando você realmente executa aquilo que planejou – e lá se planejava por um ano, um ano e meio –, você realmente colhe frutos", afirma.

E o aprendizado não vinha apenas das soluções aprovadas. "A gente saía da caixa para estudar oportunidades que tinha quase certeza de que não viabilizariam, mas aprendíamos porque elas não eram viáveis, e não porque ouvimos falar", completa.

O que limita a engenharia pré-obra atualmente

Os ganhos da antecipação são conhecidos, mas, como lembrou Raphael, a engenharia pré-obra continua sendo uma prática rara.

Para entender essa contradição, é preciso observar como as obras são contratadas. Na maioria das vezes, a construtora só é escolhida depois que os projetos estão prontos, justamente quando as principais decisões sobre sistemas, métodos e sequência de execução já foram tomadas.

A PRIME3 atua como construtora para incorporadores, investidores e outros clientes. Em boa parte dos projetos, entra por meio de uma concorrência: recebe um pacote de projetos já concluído, prepara sua proposta e, se contratada, tem cerca de 30 dias para mobilizar o canteiro.

Assim, quando inicia o trabalho, as decisões que poderiam ser discutidas na engenharia a montante já foram tomadas. Cabe à empresa orçar o que recebeu e envolver fornecedores para disputar a execução da obra.

Um levantamento da equipe de orçamentos da PRIME3 ajuda a dimensionar esse problema.

Em Curitiba, o processo de escolha da construtora dura, em média, de nove a dez meses. Durante esse período, as empresas concorrentes analisam os projetos prontos e preparam suas propostas. Depois da contratação, porém, a vencedora tem cerca de 30 dias para mobilizar o canteiro, pouco tempo para revisar as soluções que terá de executar.

Na avaliação de Fabio, escolher uma construtora para desenvolver o projeto em conjunto permitiria aproveitar parte desses meses iniciais para estudar alternativas e construir uma relação de ganha-ganha. Como ele destaca, não se trata de abrir mão do controle de custos, mas de mudar o objeto da comparação: em vez de perguntar apenas quem cobra menos para executar um projeto fechado, daria para investigar qual solução entrega o melhor resultado ao empreendimento.

Quando o cliente aciona a construtora desde a concepção do produto, o cenário muda.

Fabio citou dois projetos que a PRIME3 acompanha desde essa fase: o primeiro residencial de Norman Foster no Brasil, em Santa Catarina, e uma torre de 35 pavimentos na Rua Emiliano Perneta, em Curitiba. Segundo ele, ambos contam com uma equipe dedicada à pré-engenharia antes da primeira estaca, criando espaço para que diferentes soluções sejam estudadas.

Um exemplo está na definição da estrutura. Nessa fase, a PRIME3 pede ao projetista alternativas para o pavimento-tipo e analisa os efeitos de cada uma sobre o empreendimento. A opção com menor consumo de concreto, aço ou formas não é necessariamente a mais eficiente, porque o impacto da estrutura não termina em seu próprio orçamento.

Uma laje com custo inicial mais alto, por exemplo, pode dispensar a manta acústica ou permitir um contrapiso mais fino. Se for plana, também pode facilitar a passagem das instalações e eliminar o trabalho de mapear furos em vigas. A solução ainda pode reduzir o ciclo de execução: retirar um dia de cada pavimento de uma torre de 20 andares representa, no acumulado, aproximadamente um mês a menos de obra.

Nenhum desses ganhos aparece quando a comparação considera apenas o custo da estrutura. Para identificar a alternativa mais vantajosa, é preciso calcular o que cada escolha acrescenta ou elimina nas etapas seguintes. Essa é uma das chaves da racionalização construtiva: deixar de comparar itens isolados para analisar o efeito da solução sobre o sistema inteiro.

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Como a prototipagem contribui para a racionalização construtiva

Como a prototipagem contribui para a racionalização construtiva

Comparar alternativas e fazer contas de engenharia permite escolher a solução mais promissora, mas a racionalização construtiva não se encerra nessa decisão. Um detalhe que parece eficiente no projeto pode revelar interferências, dificuldades de montagem ou etapas desnecessárias quando chega ao canteiro. Portanto, antes de reproduzi-lo em dezenas ou centenas de unidades, é preciso colocá-lo à prova.

Na PRIME3, essa validação acontece por meio da prototipagem de shafts, apartamentos de referência e unidades-modelo.

A empresa estabeleceu uma meta interna para antecipar esse aprendizado: concluir o apartamento-modelo até 120 dias depois da concretagem do teto da unidade. Assim, os problemas aparecem enquanto ainda há tempo para ajustar a solução antes que ela se espalhe pelo restante da obra.

Fabio mostrou a importância dessa antecipação com um exemplo simples. Em um empreendimento com 400 apartamentos, a execução do protótipo permitiu eliminar três conexões de cada banheiro. Na escala do edifício, são mais de mil conexões que deixam de ser compradas e instaladas, uma mudança pequena no detalhe, mas relevante para o consumo de material, a necessidade de mão de obra e o risco de problemas no pós-obra.

Depois de testada e ajustada, a solução pode ser padronizada. Em vez de montar cada conjunto diretamente no local definitivo, a equipe prepara as peças em uma área controlada do próprio canteiro e as leva prontas para a instalação. A industrialização aparece, assim, como resultado de uma solução estudada, testada e simplificada, não apenas como a adoção de uma tecnologia considerada mais moderna.

Dá para racionalizar um projeto já definido?

A resposta à pergunta acima é "sim, mas a margem de manobra é menor".

É nesse cenário que entra a reengenharia: uma revisão técnica do projeto contratado para identificar soluções capazes de simplificar a execução, eliminar etapas ou melhorar custo, prazo e produtividade antes do início dos serviços.

Nesse processo, a equipe parte das soluções definidas, refaz análises e propõe alterações nos pontos em que ainda é possível obter ganhos. Como essas decisões já estão incorporadas aos documentos, ao orçamento e ao contrato, qualquer mudança exige mais esforço e retrabalho do que exigiria na engenharia pré-obra.

Esse, aliás, é o contexto de muitas obras executadas pela PRIME3 para terceiros.

A empresa orça o projeto que recebeu e evita tratar qualquer revisão posterior como um aditivo automático. Ainda assim, da contenção, fundação e escavação até a chegada ao pavimento-tipo, podem transcorrer de seis a oito meses. Esse intervalo permite propor mudanças antes do início da alvenaria e das instalações.

Na PRIME3, os resultados mais consistentes desse trabalho têm aparecido nas instalações elétricas, com o apoio de um consultor da própria equipe de projetos.

As instalações hidráulicas ajudam a dimensionar o impacto dessa revisão. Em um pavimento com vários estúdios em drywall, um projeto concebido em PVC e PPR pode demandar muito mais trabalhadores do que uma solução em PEX. Quando essa diferença não é analisada na concepção, a dificuldade de produtividade chega pronta ao canteiro.

"Muitas vezes, o problema da produtividade já nasce na concepção do projeto", afirma Fabio.

Um caso citado no Incorpod revela como essa resistência ainda aparece. Em uma concorrência recente, um incorporador perguntou a cinco construtoras se preferiam que o projeto hidráulico fosse desenvolvido em PEX ou em PVC e PPR. Apenas a PRIME3 escolheu o PEX. A tendência, portanto, é que o projeto siga pelo sistema convencional e, se a empresa vencer a concorrência, precise ser revisto depois.

O exemplo fecha o ciclo discutido ao longo do episódio. Quanto mais cedo a engenharia compara alternativas, maior a possibilidade de racionalizar sem retrabalho. Quando essa antecipação não acontece, a reengenharia ainda pode recuperar parte do caminho, mas a um custo maior.

No encerramento do Incorpod, Fabio deixou três recomendações às empresas: acreditar nos processos, testá-los e fazer mais contas de engenharia. Afinal, em um setor pressionado pela escassez de mão de obra e pela baixa produtividade, continuar repetindo soluções apenas porque sempre foram usadas pode ser mais arriscado do que experimentar algo novo.

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Assista ao Incorpod e saiba mais

O que você leu aqui é apenas um recorte da conversa da décima quinta edição do Incorpod. Dê o play no vídeo abaixo e assista ao programa na íntegra!


Imagem de destaque: Evgeniy Surzhan; Daniel McCullough e Foto de Evgeniy Surzhan na Unsplash