Eficiência pré-obra como estratégia de lucratividade

Primeira edição presencial do Incorpod reuniu especialistas em Goiânia para mostrar como decisões técnicas na fase de projeto podem gerar economias de centenas de milhares de reais e reduzir meses do cronograma. Confira os destaques das palestras sobre instalações, estruturas e aço de alta resistência.

Por Celere Publicado em 04/02/2026 Leitura: 9 min
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Eficiência pré-obra como estratégia de lucratividade

Da escolha do sistema estrutural ao dimensionamento de instalações, primeira edição presencial do Incorpod mostrou como decisões técnicas na fase de projeto determinam a viabilidade financeira dos empreendimentos

No dia 13 de novembro de 2025, a sede do Sinduscon-GO recebeu a primeira edição presencial do Incorpod, evento organizado pela Celere em parceria com a Nexxa Engenharia, a ASPEN Engenharia e a Agilean, com o objetivo de promover debates sobre o presente e o futuro da construção civil brasileira.

O encontro reuniu incorporadoras, construtoras e profissionais técnicos para discutir um assunto que vem ganhando peso estratégico no setor: como decisões tomadas ainda na fase de pré-obra estão determinando o resultado financeiro, o prazo e a previsibilidade dos empreendimentos.

O evento mostrou que o canteiro tradicional, baseado em improviso, correções tardias e retrabalho, não responde aos desafios atuais da construção civil. Em seu lugar, ganha espaço um modelo orientado por dados, industrialização e integração técnica desde a concepção do projeto.

A programação contou com uma série de palestras, cases práticos, dados de mercado e metodologias comprovadas sobre os temas mais quentes do momento.

Abrimos nossa cobertura especial apresentando os destaques de três palestras:

  • Antecipar para economizar: estratégia e valor em projetos de instalações – Mauro de Couet, sócio e Diretor Executivo da Nexxa Engenharia
  • O poder da estrutura: como escolhas técnicas aumentam a lucratividade – Lucas Oliveira, sócio e Diretor de Engenharia da Aspen Engenharia
  • O futuro do aço: alta eficiência e sustentabilidade – Leandro Mendonça, Engenheiro de Desenvolvimento e Aplicação da ArcelorMittal.

Apesar de abordarem áreas diferentes, as três apresentações mostraram que decisões técnicas inteligentes nas fases iniciais do projeto podem gerar economias de centenas de milhares de reais e reduzir meses do cronograma de obra.

Quando antecipar vira economia real

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Mauro de Couet, cofundador da Nexxa Engenharia, abriu o evento trazendo exemplos práticos de como projetos de instalações mais bem estudados na fase de concepção podem evitar investimentos desnecessários e reduzir custos expressivos.

Entre os cases apresentados, chamou atenção a aplicação de sistemas inteligentes de gestão de carga para recarga de veículos elétricos em um empreendimento no Espírito Santo.

O briefing inicial do cliente solicitava recarga de veículos elétricos para todas as 371 vagas de garagem. Se executado conforme solicitado, o projeto demandaria oito transformadores, com investimento estimado de R$ 1,35 milhão.

A equipe da Nexxa propôs uma alternativa baseada em dados estatísticos: hoje, apenas 0,583% da frota brasileira é eletrificada. Nos últimos quatro trimestres, foram vendidos 2,5 milhões de veículos no Brasil. Desses, 134 mil eram elétricos – ou seja, 5,3%.

A lógica aplicada é direta: nem toda demanda ocorre ao mesmo tempo, e um brasileiro roda em média entre 900 e 1.000 km por mês, o que torna necessário recarregar o veículo aproximadamente uma vez por semana. "Não há necessidade de ter uma infraestrutura 100% dimensionada para uso simultâneo quando a recarga acontece uma vez por semana", comentou.

Com base nesse cenário real e aplicando sistema de smart charging com gestão inteligente de demanda, a Nexxa conseguiu reduzir a necessidade para apenas dois transformadores, gerando economia direta de R$ 750.000 na infraestrutura elétrica, além de R$ 39.600 no barramento blindado.

Ainda assim, como explicou Mauro, o incorporador pode vender 100% das vagas com previsão de recarga elétrica. "Ele pode prever isso em manual, dizendo qual sistema o condomínio deve instalar, e cada morador depois faz sua própria ramificação", revelou.

Este foi apenas um dos exemplos apresentados por Mauro no palco do Incorpod. Ele também trouxe dados que dimensionam o desafio do planejamento – em um edifício de 30 pavimentos são necessárias 59.238 peças, 802 itens diferentes e 98.542 metros de canalizações (!) – e contou sobre uma vez em que 210 incompatibilidades foram resolvidas ainda na fase de projeto. "Se não resolvemos isso em projeto, vamos resolver na obra. E a gente sabe que não tem mão de obra", alertou.

A mensagem central foi direta: "Precisamos nos antecipar para economizar. Projetos de instalações bem estudados na fase de concepção evitam surpresas caras na execução".

Estrutura como decisão de negócio

Na sequência, Lucas Oliveira, sócio e diretor de engenharia da Aspen, subiu ao palco para mostrar como a escolha do sistema estrutural deixou de ser apenas uma decisão técnica para se tornar uma variável estratégica do negócio imobiliário, que impacta diretamente a viabilidade financeira do empreendimento.

"A função da engenharia, basicamente, é otimizar recursos. Cada vez mais, com o cenário atual desafiador, a engenharia deixa de ser um custo e passa a ser estratégica", contextualizou.

Na visão dele, diante da diversidade de requisitos de cada projeto – tipo de obra, vãos livres, mão de obra disponível, equipamentos, velocidade de execução –, não existe uma única solução estrutural ideal para todos os casos. "Na verdade, existem soluções estruturais que atendem melhor alguns requisitos de projeto. O requisito pode ser custo, velocidade de execução, disponibilidade de equipamentos e mão de obra", explicou.

Nesse sentido, ele destacou a necessidade de se realizar estudos comparativos completos ainda na fase preliminar. "Para comparar soluções estruturais, é preciso modelar de fato o edifício com três soluções diferentes, verificar se os requisitos de estabilidade global, deslocamento e dimensionamento estão passando, e comparar consumos de concreto, aço, forma, cordoalha, cubetas, escoramento, mão de obra", apontou.

Um dos cases apresentados por ele fez exatamente isso: comparou três sistemas estruturais para um edifício residencial em Penha (SC): laje maciça de concreto armado, laje nervurada de concreto armado e laje plana de concreto protendido.

A laje maciça convencional apresentou custo total de R$ 10,3 milhões. A laje nervurada, com uso de cubetas reutilizáveis e redução na taxa de fôrmas, chegou a R$ 9,1 milhões – economia de 11%. Já a laje plana protendida, com maior padronização de armaduras e eliminação de vigas internas, ficou em R$ 8,9 milhões – economia de 13%, ou R$ 1,4 milhão em relação à solução convencional.

"Mas os números absolutos contam apenas parte da história", alertou Lucas. Ele detalhou que a laje plana protendida oferece maior velocidade de execução, maior padronização de armaduras, desforma mais rápida e produtividade superior por HH/m². "Sem vigas internas, você tem flexibilidade de layout arquitetônico, reduz interferências com instalações prediais e elimina necessidade de juntas de dilatação", comentou.

Ao longo da apresentação, Lucas trouxe outros exemplos de como decisões técnicas bem fundamentadas geram resultados financeiros concretos. Para finalizar, sintetizou os aprendizados em seis conclusões práticas:

  • Estudos comparativos trazem inteligência de decisão;
  • Produtividade e tempo de execução precisam entrar na conta;
  • Ganhos indiretos devem ser contabilizados;
  • Sistema estrutural impacta na concepção arquitetônica;
  • Sistemas de escoramento e fôrmas impactam o custo e o prazo;
  • A escolha do sistema estrutural precisa ser decisão conjunta entre construtora, arquiteto e engenheiro.

"Cada vez mais, com o cenário atual desafiador, a gente precisa otimizar, deixar nossas obras mais eficientes. E para isso a engenharia deixa de ser um custo e passa a ser estratégica", reforçou o sócio e diretor de engenharia da Aspen Engenharia.

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Como escolher sistemas estruturais inteligentes para edifícios

Inovação como ferramenta para enfrentar desafios estruturais

Fechando o ciclo de apresentações técnicas, Leandro Mendonça, engenheiro de desenvolvimento e aplicação da ArcelorMittal, trouxe ao palco do Incorpod o conceito de "aço inteligente" – uma solução que combina sustentabilidade, eficiência e redução de custos estruturais por meio da industrialização.

Antes de falar sobre a solução em si, porém, Leandro analisou o momento dos canteiros de obra no Brasil.

Segundo ele, como resultado de processos excessivamente manuais e um cenário de mão de obra cada vez mais escassa e envelhecida, muitos canteiros Brasil afora enfrentam problemas como grande perda de material, execuções muito longas, baixa padronização, falta de precisão dimensional e elevado risco de acidentes. Nesse contexto, ele destacou que "temos que pensar hoje, não no futuro, na industrialização".

O primeiro produto apresentado como uma das soluções neste sentido foi a armadura pronta soldada (APS), que elimina o trabalho manual de montagem no canteiro e torna o processo 60 vezes mais eficiente.

A evolução da APS é a fôrma incorporada, que entrega não apenas a armadura pronta, mas também a fôrma finalizada, eliminando completamente a necessidade de carpintaria.

Leandro apresentou um case que mostrou redução de até 80% da mão de obra de armação em vigas de fundação ao usar a fôrma incorporada. "Todo aquele grupo de pessoas para montar vergalhão por vergalhão, de ter um espaço reservado no canteiro – cada vez mais os canteiros estão estreitos – você otimiza isso", explicou.

A imagem abaixo mostra o ganho de produtividade e economia em uma torre feita com APS com Fôrma incorporada na comparação com outra feita com corte e dobra com forma de madeira:

Mas a grande inovação apresentada por Leandro foi o vergalhão CA70, aço de alta resistência 40% superior ao convencional CA50, que permite redimensionar estruturas com bitolas menores, aumentar espaçamento entre barras e melhorar a concretagem. "Se reduzo o aço e o espaçamento entre as barras, melhoro minha concretagem. Além disso, posso economizar no concreto também, porque concreto com brita zero, concreto fluido são mais custosos que os tradicionais", explicou.

Um dos primeiros projetos com CA70 foi da Construtora FR em Goiânia. Ao substituir a bitola 32 do CA50 pela bitola 25 do CA70 nos blocos de fundação, o resultado foi este:

Por fim, Leandro destacou o aspecto ambiental desse material. Segundo ele, o vergalhão XCarb da ArcelorMittal, produzido com 100% de sucata reciclada e energia renovável, apresenta redução de 68% nas emissões de CO? em comparação ao vergalhão convencional (88 kg CO?/ton contra 284 kg CO?/ton).

"A engenharia do futuro é construída hoje com processos inteligentes e soluções industrializadas", concluiu.

Leia também:
4 cases de industrialização na construção: da teoria à execução

Próximos capítulos: gestão de mão de obra e otimização de custos

O que você acabou de ler foram apenas os destaques de uma parte da programação do primeiro Incorpod presencial. O evento contou ainda com outras duas palestras:

  • "Motor da otimização: a tríade para gerar redução de custos e lucros consistentes", realizada pelo Raphael Chelin, CEO da Celere;
  • "Gestão de Mão de Obra – Métodos e Tecnologia transformando desafios em oportunidades", feita por André Quinderé, CEO da Agilean.

Nos próximos artigos, falaremos sobre elas em detalhes. Fique de olho em nosso blog para não perder.

Agenda aberta!

Este ano, além das edições virtuais periódicas, o Incorpod terá outras edições presenciais em diferentes regiões do Brasil, reunindo profissionais de incorporadoras e construtoras para debater o presente e o futuro da construção civil com dados, metodologias e cases reais. Assine nossa newsletter e nos acompanhe no Instagram para ficar por dentro das datas e participar.