Industrialização na construção na prática: da obra ao produto

Por Equipe Celere Publicado em 23/10/2025 Leitura: 14 min
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Industrialização na construção na prática: da obra ao produto

Líder de engenharia e operações da Tecverde apresenta metodologia que transforma construção civil em processo industrial por meio da padronização de produto, da estabilização de processos e de métricas que retroalimentam a operação

Mão de obra desqualificada. Essa é a reclamação que 98% dos donos de construtoras e incorporadoras trazem quando chegam à Donos de Construtoras – consultoria especializada em aceleração de construtoras e incorporadoras com foco em autonomia operacional e aumento de margem.

Segundo Guilherme David, engenheiro civil que lidera a empresa, existem dois tipos de mentalidade diante desse cenário: há quem aceita passivamente que “é assim mesmo” e há quem age para mudar a realidade.

Para quem escolhe agir, a industrialização da construção civil surge como resposta estrutural para esse e outros desafios crônicos do setor.

Mas como sair do discurso e de fato promover a industrialização? Como transformar canteiros caóticos em ambientes produtivos e previsíveis? Essas perguntas foram respondidas por Stephan Constantino, que lidera engenharia e operações da Tecverde, durante a 12ª edição do Incorpod, webinar promovido pela Celere em parceria com a Donos de Construtoras, a Nexxa Engenharia, a ASPEN e a Agilean A apresentação revelou não apenas os bastidores técnicos da industrialização, mas, principalmente, um framework que permite escalar o processo de forma sustentável. Como destacou Stephan, “não tem receita de bolo, não tem nada mágico”, mas ao mostrar o que a Tecverde vem fazendo, ele inspira outras organizações a seguirem um caminho parecido.

Por que industrializar?

Antes de entrar no “como”, porém, é fundamental entender o “porquê”. 

Por mais que a construção civil seja um setor heterogêneo – com empresas atuando desde infraestrutura pesada até residencial de alto padrão –, as dores são universais: prazo, custo, retrabalho, segurança e compliance.

Dores do setor de construção civil

“A engenharia é muito vendida como a arte de fazer coisas grandiosas, de escalar. Mas eu gosto de entender que a engenharia é a arte de reduzir”, contextualiza Stephan. “A gente reduz prazo, a gente tá sempre buscando reduzir custo, e quando a gente fala de industrialização, o nosso foco é redução de variabilidade”, explica.

A variabilidade é o que gera atrasos crônicos, aditivos contratuais e o estigma da construção civil como setor ineficiente. Como observa Stephan, isso ficou especialmente evidente nos contratos públicos nos últimos anos, criando uma percepção negativa generalizada do setor.

E qual é a solução? Padronização e industrialização. 

Não existe uma única maneira de fazer, mas o caminho passa necessariamente por esses dois pilares. Padronizac?a?o e industrializac?a?o como soluc?a?o para a construção

#1 Padronização = Produto

Quando falamos de padronização, estamos falando essencialmente de produto. E a base desse pilar é o DfMA (Design for Manufacturing and Assembly), a maneira como os produtos são concebidos pensando nos processos de fabricação, montagem, execução em canteiro e entrega.

O DfMA exige que o cliente da construção industrializada entre em contato com o construtor nos momentos iniciais do projeto, porque o desenho do produto e do processo acontece nas fases mais incipientes do planejamento.

A lógica tradicional da construção civil se inverte aqui. Em vez de ter o maior volume de discussões no meio do desenvolvimento do projeto, a industrialização traz todas as decisões para o início. “A gente tira a decisão do canteiro. O canteiro não decide nada. O canteiro precisa ser um ambiente de execução simples e rápida”, aponta.

#2 Industrialização = Processo

Quando falamos de industrialização, estamos falando de processo. E aqui está o grande desafio: fazer dentro da fábrica é relativamente factível, o difícil é criar a ponte entre a fábrica e o canteiro.  Industrialização na construção na prática: da obra ao produto - engenhariaPara isso, a primeira etapa da montagem no canteiro precisa ser vista como a última etapa da fábrica. Isso significa aplicar no canteiro os mesmos conceitos de uma linha de produção industrial. “Da mesma maneira que a Toyota olha a linha dela, da mesma maneira que a Samsung olha uma produção de semicondutor, a gente precisa olhar para o canteiro com esse conceito fabril”, avalia o líder de engenharia e operações da Tecverde.

A combinação desses dois pilares – padronização de produto e industrialização de processo – gera previsibilidade de gestão. Quando produto e processo estão estabilizados, os problemas de tomada de decisão diminuem, a execução fica mais clara e a gestão ganha previsibilidade real.

O framework dos 5 Ps: tirando a industrialização do papel

Para operacionalizar esses conceitos, Stephan apresentou o framework que a Tecverde utiliza internamente. “É um framework simples de basicamente cinco Ps: produto, processo, pessoas, plataforma e performance”, resume.  O framework dos 5 Ps: tirando a industrialização do papel Cada um desses pilares desempenha papel específico e se conecta aos demais para criar um sistema industrial funcional.

P1: Produto – Definindo o que varia e o que não varia

O primeiro P define a envoltória de tudo que será feito. Produto é decidir até onde vai a personalização, o que será padronizado, quantas variações do mesmo produto existirão e quem participa da concepção. Os elementos essenciais do pilar Produto incluem:
  • Catálogo muito bem definido de quais fornecedores podem ser usados e qual variação de especificação de cada produto será oferecida.
  • Detalhes padrão para execução dentro da fábrica.
  • Quantidade e variação de kits – não apenas os tradicionais kits elétrico e hidráulico, mas quantas variações de cada kit podem ser oferecidas.
  • Tolerâncias – não apenas do ponto de vista técnico, mas quanto de variação é aceitável com o cliente em termos de personalização.
  • DfMA aplicado – a lista de premissas para ter o Produto Mínimo Viável (MVP) antes de elaborar variações.

Leia também: Industrialização na construção: como kits hidráulicos e elétricos podem transformar a produtividade e reduzir custos

P2: Processo – Fábrica e canteiro como cadeia única

O segundo P é onde a industrialização efetivamente acontece. E aqui Stephan faz questão de destacar: “para mim esse é o pulo do gato” – a conexão entre fábrica e canteiro. O estabelecimento de processos industriais exige:
  • Olhar fabril para toda a cadeia – aplicar os mesmos conceitos de análise de processo que empresas industriais aplicam.
  • Deep dive no fluxo – entender todas as etapas em mínimo detalhe para saber o que importa e, crucialmente, o que não importa.
  • Estabilização, não engessamento – o processo precisa ser factível no dia a dia, não extremamente complexo.
  • Poka-yokes e jigs – ferramentas que obrigam o operador a voltar ao processo padrão caso surja uma ramificação não mapeada.
  • Eliminação de variabilidade – quanto menos decisões precisarem ser tomadas no canteiro, melhor.

“Eu preciso primeiro fazer um deep dive em cima desse fluxo de informações para depois saber se aquilo serve para mim, se aquilo não serve, o que eu preciso olhar, o que eu preciso fazer para garantir que o meu operador dentro do canteiro tenha condição de montar aquilo sem precisar ficar o tempo inteiro em contato com a equipe de projetos”, explica.

P3: Pessoas – Simplicidade sobre sofisticação

O terceiro P é crítico porque processos e produtos não andam sem pessoas. Sem uma equipe extremamente alinhada, treinada e com análise crítica aguçada, a industrialização não funciona. Mas há uma armadilha: a tentação da complexidade.

“A gente acaba caindo às vezes no problema da sofisticação extrema, da coisa altamente complexa. Ainda mais no ambiente corporativo, alguns núcleos tendem a favorecer e dar mérito para coisas extremamente complexas, extremamente detalhadas, extremamente difíceis de executar”, analisa.

Stephan cita o livro “Incrivelmente Simples”, de Ken Segall, ex-diretor de produto da Apple, que fala sobre como a simplicidade transformou a empresa. “A complexidade é a primeira bifurcação que você precisa escolher entre simplicidade – que vai gerar algo produtivo – e algo que vai gerar algo extremamente ruim”. E completa: “a simplicidade não necessariamente é algo mais fácil de se fazer. Muito pelo contrário, às vezes a gente precisa tirar da frente algumas soluções que parecem óbvias e é difícil chegar na solução mais simples”. A equipe precisa estar confortável num ambiente de processos bem definidos. Caso contrário, o processo não se desenrola, não se desenvolve. E isso vale para todas as áreas da empresa.

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P4: Plataforma – Tudo que sustenta o produto

O quarto P é tudo que você precisa para manter o produto de pé. “De nada adianta eu ter um catálogo de produtos extremamente sofisticado se eu não tenho um fornecedor que me entrega bem, que me atende bem”, indica. Os elementos essenciais da Plataforma incluem:
  • Fornecedores homologados e confiáveis que entendam o que você está fazendo, por que precisa de industrialização e por que precisam mudar o processo deles para te atender em modelo quase just-in-time.
  • Critérios de qualidade objetivos – controles binários (pode/não pode) que tiram do inspetor a subjetividade de decisão.
  • Rastreabilidade do produto – “Eu preciso saber quem fez, quando fez e como fez, porque se eu não sei, se eu tenho um problema, eu não consigo ir atrás da causa raiz”, comenta Stephan.
  • BIM como conceito completo – não apenas modelagem 3D, mas conexão com base de dados, listas de materiais automatizadas, sequências de montagem, assertividade de orçamento.
  • Contratos e compliance – definição clara de papéis e limites de personalização. “Os clientes não estão preparados para receber um produto industrializado. A gente precisa estabelecer um relacionamento onde o cliente entende até onde ele contribui e onde começa o ponto de não retorno”.
Sobre o BIM especificamente, Stephan é enfático: “não existe processo de industrialização na construção civil sem a aplicação do BIM como conceito completo”. O BIM precisa alimentar suprimentos, orçamento, fabricação – toda a cadeia. “Se você tem simplesmente um modelo visual, ele pode inclusive te levar para decisões erradas”, indica.

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P5: Performance – Dados que retroalimentam

O quinto e último P é o output de tudo que foi construído nos quatro anteriores. Performance trata de métricas, dashboards e dados – mas com um alerta importante de Stephan:

“o setor da construção tem uma obsessão por dashboards, por dados, mas esses dados precisam ter algum reflexo na operação, precisam ter utilidade. Quando a gente mapeia o processo, a gente tem que ter muito critério para definir o que a gente vai acompanhar, porque pode ser que eu esteja acompanhando alguma coisa que não gera nenhuma retroalimentação no meu processo”.

Ter todos os dados coletados de maneira precisa e criteriosa é importante para retroalimentar tudo que está sendo feito nos outros 4 Ps. Performance é output, não input. Você não muda sua estrutura forçando conceitos de gestão para dentro da operação. Você reestrutura produto, processo, pessoas e plataforma – e aí sim consegue aplicar as melhores práticas de gestão de projetos. Ao sintetizar o framework, Stephan resume: “produto certo, processo estável e métrica – esses três fatores trazem as bases sólidas para conseguir transformar tudo que a gente traz da cabeça do cliente, da cabeça do que o mercado quer, para algo minimamente padronizável, escalável, de forma sustentável e de forma sistêmica”.

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Como a industrialização transforma a operação

[caption id="attachment_5525" align="aligncenter" width="1000"]Como a industrialização transforma a operação Imagem criada por jcomp - www.freepik.com[/caption] A adoção do framework dos 5 Ps não apenas organiza a produção, ela transforma fundamentalmente como cada área da empresa opera. Stephan apresentou como quatro esferas críticas mudam seu comportamento com a industrialização.
  • Na Engenharia, a mudança é radical. “Quando eu enxergo minha obra como produto, a engenharia para de discutir detalhes pontuais. Ela passa a discutir os limites da plataforma, os limites da customização”, explica. A equipe começa a focar no que realmente gera valor em toda a cadeia, em todos os projetos que serão executados.
  • No Comercial, a lógica se inverte. “O comercial para de vender soluções do zero. E aqui, de novo, não é engessar, é estabilizar”, explica. A partir do momento que está bem estruturado e entende o mercado, o comercial alimenta a engenharia para que os produtos atendam um range maior de clientes e passa a vender variantes, não produtos do zero.
  • Na Produção, o pensamento se torna sistêmico. A produção para de discutir problemas pontuais e passa a olhar takt, padronização e problemas recorrentes – aquilo que impacta a cadeia de valor. “Isso aqui vai ser feito uma vez, eu não vou mais repetir, não preciso gastar a energia da minha equipe colocando foco nisso”, resume Stephan.
  • Na Qualidade, critérios objetivos substituem subjetividade. “A qualidade começa a trabalhar em gates. É binário: isso aqui pode, isso aqui não pode”, detalha. Com produto e plataforma bem definidos, a qualidade sabe exatamente o que aceitar e o que rejeitar – mesmo para clientes internos, não apenas na entrega final.

O papel da gestão de custos na industrialização

Um tema que perpassa todos os 5 Ps do framework é a gestão de custos. Quando Stephan fala de DfMA, de kits, de BIM conectado à base de dados, de rastreabilidade e métricas que retroalimentam – tudo isso depende de controle preciso e granular de custos.

A industrialização não tolera imprecisão orçamentária. Com funding caro e margens apertadas, cada decisão de produto precisa ser tomada com base em números reais. Você precisa saber exatamente quanto custa produzir cada variação de produto, cada kit, cada customização. Como destacou Stephan ao falar do BIM, “o BIM precisa ter assertividade de orçamento, assertividade em quantitativo e servir a um projeto previsível”. Sem isso, você não tem DfMA funcional, não consegue criar um catálogo viável de produtos e não tem como definir os limites de personalização que tornam o negócio rentável. E essa necessidade não se limita a quem constrói com sistemas industrializados. Os princípios de gestão que a industrialização exige são aplicáveis – e necessários – também na construção convencional. Empresas que dominam seus números conseguem:
  • Testar diferentes configurações de produto antes de lançar, identificando as mais rentáveis.
  • Definir limites claros de personalização com base em impacto real no custo.
  • Tomar decisões rápidas durante a obra com segurança sobre o impacto financeiro.
  • Retroalimentar o processo com dados precisos de custo realizado versus orçado.
  • Profissionalizar a gestão para acessar funding alternativo (investidores, FIIs, mercado de capitais).

Como a Celere apoia a jornada de industrialização

A Celere entende profundamente os desafios que Stephan apresentou porque trabalha há mais de 10 anos ajudando incorporadoras e construtoras a terem controle total sobre custos de construção, liderando a digitalização da gestão de construção. Nossa atuação une inteligência de mercado, tecnologia BIM 5D e gestão de custos para entregar exatamente o que a industrialização exige: orçamentação que alimenta o DfMA, controle que sustenta a plataforma, métricas que retroalimentam o processo e credibilidade para acessar novos fundings.

Quer começar sua jornada de industrialização – ou aplicar esses princípios na sua operação atual?

Entre em contato e descubra como nossa metodologia pode ajudá-lo a:
  • Desenvolver produtos com margens seguras e competitividade comprovada
  • Criar plataforma sólida de controle de custos que sustenta decisões rápidas
  • Profissionalizar gestão para acessar funding alternativo
  • Implementar métricas que realmente retroalimentam sua operação