A mais recente Sondagem Indústria da Construção traz números que revelam um cenário paradoxal: enquanto o setor mantém ritmo de atividade e emprego, a confiança dos empresários completou 15 meses consecutivos no vermelho.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da Construção caiu para 46,5 pontos em março – o pior resultado desde que iniciou essa sequência negativa. E, pela primeira vez em meses, as expectativas para os próximos seis meses cruzaram a linha divisória e passaram de otimistas para pessimistas.

A partir desses dados, hoje quero discutir com você por que a construção executa, contrata e entrega, mas os empresários não confiam no futuro.
Os números de desempenho
Em fevereiro de 2026, o índice de evolução do nível de atividade da construção subiu 2,6 pontos (para 45,7), enquanto o índice de evolução do número de empregados avançou 1,7 ponto (para 47,0). A Utilização da Capacidade Operacional (UCO) ficou em 65%, alta de 1 ponto percentual.
Na prática, isso significa que os canteiros continuam ativos, as empresas continuam contratando e as obras continuam sendo entregues.

O problema é que todos esses índices de desempenho estão abaixo de 50 pontos, o que tecnicamente indica retração (não expansão). E mais: todos são menores que os registrados em fevereiro de 2025.
Então o setor não parou, mas desacelerou.
Confiança em queda livre
Dois componentes explicam a queda de 2,1 pontos em março da ICEI da Construção:
#1 Condições atuais pioraram
O índice de condições atuais caiu para 42,3 pontos. Empresários avaliam que tanto a economia brasileira (36,3 pontos) quanto suas próprias empresas (45,3 pontos) estão em situação negativa.
#2 Expectativas viraram de cabeça para baixo
O índice de expectativas caiu para 48,7 pontos, cruzando pela primeira vez a linha de 50 pontos. Isso significa que os empresários, que antes esperavam melhora nos próximos seis meses, agora esperam piora.
Além disso, em março de 2026, dois índices de expectativa cruzaram a linha divisória pela primeira vez em meses:
- Expectativa de número de empregados: 49,5 pontos (antes esperavam contratar, agora esperam demitir)
- Expectativa de novos empreendimentos: 49,7 pontos (antes esperavam lançar, agora esperam retrair)
Ou seja, empresários estão sinalizando que podem reduzir lançamentos e enxugar equipes nos próximos seis meses.
E a expectativa de nível de atividade, embora ainda acima de 50 (51,3 pontos), caiu 0,8 ponto e se aproxima perigosamente da linha divisória.
A pergunta incômoda
Como um setor que acabou de ultrapassar 3 milhões de trabalhadores, que lançou 453 mil unidades em 2025 e que mantém canteiros ativos pode estar pessimista?
A resposta está nas variáveis externas que estão fora do controle dos empresários:
Selic em 15% corrói viabilidade. Como mostrei na ConstruFoco #58, a construção é estruturalmente sensível a juros. Com a Selic nesse patamar, o funding fica caro, o crédito imobiliário fica restrito e as margens ficam pressionadas. Empresários sabem que, enquanto os juros não caírem, novos lançamentos se tornam progressivamente mais arriscados.
Escassez de funding tradicional persiste. Como detalhamos em artigos anteriores, o SBPE para PJ caiu 54%, obrigando empresas a buscar mercado de capitais – mas 57% nunca fizeram isso antes. Essa transição não é simples nem rápida, e exige profissionalização que muitas empresas ainda não têm.
Custos operacionais em alta. Mão de obra escassa pressiona salários. Insumos oscilam – condutores elétricos, por exemplo, acumulam 5,6% para cada 10% de alta no cobre. E o INCC médio esconde variações brutais por categoria, o que dificulta previsibilidade nos orçamentos.
Incerteza macroeconômica trava decisões. Empresários avaliam que a economia brasileira está negativa (36,3 pontos na Sondagem). Enquanto essa percepção persistir, decisões de lançamento ficam travadas – ninguém quer assumir risco de obra de 24 meses em cenário nebuloso.
O que isso significa na prática
Quando expectativas de novos empreendimentos e de contratações cruzam a linha de 50 pontos para baixo, o sinal é claro: empresários estão se preparando para um cenário defensivo.
Isso pode se traduzir em:
- Adiamento de lançamentos planejados.
- Redução de equipes (especialmente em áreas administrativas).
- Cancelamento ou postergação de investimentos.
- Foco em finalizar obras em andamento (não iniciar novas).
Se muitas empresas tomarem decisões defensivas simultaneamente, a retração esperada pode se tornar autorrealizável.
Dados não mentem, mas também não decidem sozinhos
Os números da Sondagem CNI/CBIC são um termômetro importante, mas não são destino inevitável. Empresas que mantiverem controle sobre custos, orçamentos atualizados, gestão eficiente e acesso a funding diversificado estarão mais preparadas para navegar esse cenário de incerteza – e até para aproveitar oportunidades quando concorrentes recuarem.
Como tenho repetido nas últimas edições, em um setor sensível a variáveis externas, o controle sobre variáveis internas se torna ainda mais crítico. Por isso, acompanhar a ConstruFoco e o Blog da Celere toda semana é parte essencial de uma estratégia de gestão informada – não apenas para saber o que aconteceu, mas para entender o que isso muda no seu planejamento.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO
Imagem de destaque: Lai Man Nung na Unsplash