Gestão de mão de obra com lean construction: desafios e oportunidades

Escassez de mão de obra qualificada, custos em alta e produtividade em queda são alguns dos desafios da construção civil brasileira. Entenda a raiz do problema e conheça uma metodologia que pode ajudar a resolvê-lo

Por Celere Publicado em 12/02/2026 Leitura: 8 min
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Gestão de mão de obra com lean construction: desafios e oportunidades

Todo profissional de construção civil sabe que um dos grandes problemas do canteiro de obras é o desperdício. Porém, o que muitas vezes passa despercebido é que, enquanto o desperdício de material deixa rastro – e, portanto, pode ser facilmente calculado –, há um outro tipo de desperdício que só aparece no final, quando o custo estoura e ninguém entende exatamente por quê. Estamos falando do desperdício de mão de obra.

Como destacou André Quinderé, CEO da Agilean, no palco da primeira edição presencial do Incorpod, que aconteceu no fim do ano passado, em Goiânia (GO), em alguns casos, a mão de obra pode representar mais de 50% do custo da obra. Apesar disso, justamente por seu desperdício ser invisível, muitas vezes esse custo é gerenciado "às cegas".

"Quantos engenheiros conseguem dizer com segurança qual foi a produtividade real da equipe hoje? Qual é o percentual de retrabalho e qual é o custo desse retrabalho dentro do canteiro? Se uma equipe faltar amanhã, o que muda no planejamento da semana? Essas são perguntas básicas sobre um fator de produção essencial dentro do nosso canteiro, que hoje é intensivo em mão de obra, e que poucas pessoas conseguem responder. A gente precisa mudar isso, a gente precisa gerenciar mão de obra de uma forma melhor", alertou.

Para materializar esse problema, André trouxe dados que evidenciam a crise:

Principais impactos gerados pelos desafios da ma?o de obra

E quando você olha para a pirâmide etária brasileira, o cenário se torna ainda mais preocupante. Afinal, a previsão é que, a partir de 2037, a força de trabalho brasileira comece a encolher.

Pirâmide etária brasileira

"A gente vai precisar mudar, deixar de ser uma indústria tão intensiva em mão de obra para ser uma indústria mais tecnológica, mais mecanizada", avaliou o executivo.

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Uma solução: Lean Construction além das ferramentas

Quando assuntos como redução de desperdício, planejamento eficaz e previsibilidade de prazos na construção entram em pauta, muita gente logo pensa em Lean Construction. Mas, como lembrou André, "essa é só metade da história".

"Poucas empresas falam do fluxo de valor das pessoas. Como valorizar quem está no canteiro? Como fazer com que essas pessoas participem do processo de gestão?", questionou.

Segundo ele, quando se une o fluxo do produto e o fluxo das pessoas, deixa-se de pensar em ferramentas pontuais e cases isolados para ter uma filosofia de gestão sustentável. "Quando as pessoas entendem o porquê de cada controle, elas engajam. Mas quando elas viram só um robozinho repetindo processos porque alguém mandou, quando o consultor dá as costas, a coisa desanda", explicou.

De acordo com André, empresas que conseguem integrar produto e pessoas de forma consistente apresentam redução de 30% no desperdício, ganho médio de 20% em produtividade, previsibilidade de prazos e custos, e equipes mais engajadas. A imagem abaixo detalha como funcionam, na prática, cada um desses fluxos.

Como o Lean pode ajudar as empresas nesse desafio

A pirâmide de Maslow no canteiro

Mas como transformar esse conceito de "fluxo de valor das pessoas" em prática? Para André, a resposta está em algo mais antigo que o próprio Lean Construction: fazer o básico muito bem feito.

As empresas que conseguem reter mão de obra e manter alta produtividade aplicam, mesmo sem perceber, princípios da pirâmide de Maslow. E quando você olha para os canteiros brasileiros com essa lente, fica claro o tamanho dos gaps.

Pira?mide de Maslow no canteiro

  • Na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas. Como estão os refeitórios? Os vestiários? As condições de segurança?
  • Subindo para pertencimento: as metas são claras para os engenheiros, mas e para quem está na ponta? O operário sabe exatamente o que se espera dele?
  • No topo, autorrealização: o operário entra como servente. Em qualquer outra indústria, ele teria plano de carreira bem articulado. Na construção? "Fica aí junto do pedreiro, aprende. Pode ser que na próxima obra vire pedreiro. Se quiser ser encarregado, tem que se mostrar engajado e torcer para algum líder dar essa oportunidade", avaliou o CEO da Agilean.

A partir dessa análise, André disse que a gente precisa pensar, no curtíssimo prazo, em como fazer esse básico bem feito dentro da nossa indústria. E destacou que algumas empresas já estão se diferenciando…

Ele contou, por exemplo, que uma construtora publicou artigo no International Group of Lean Construction (IGLC) sobre áreas de vivência com meditação e espaço de repouso dentro do canteiro – iniciativas que, na visão dele, há poucos anos seriam impensáveis na construção civil brasileira. "Eu lembro quando andava em obra na hora do almoço e via operários no chão usando tijolo de travesseiro para descansar. É uma realidade totalmente fora da pirâmide de Maslow", comparou André.

Na imagem abaixo, já vemos outro ambiente no canteiro:

A?reas de vive?ncia no canteiro de obras

"São coisas simples que conseguimos fazer mudando o mindset", refletiu.

Mas além dessas melhorias nas condições básicas, o CEO da Agilean apontou problemas mais profundos e estruturais. Segundo ele, existe uma desconexão sistêmica entre áreas que dificulta o gerenciamento da mão de obra na construção civil.

Se os índices de produtividade não estão bem coletados e alinhados com a execução, o orçamento vira apenas uma meta de custo, não uma ferramenta gerencial do dia a dia. Além disso, o cronograma precisa ter capilaridade e chegar no canteiro. "Tem que ser simples para o dono da empresa interpretar e para o operário entender. Se não tiver capilaridade, morreu", alertou André.

Outro ponto levantado por ele é que, na maioria das obras, a qualidade é área isolada, só para certificação. "A qualidade atesta o retrabalho. A gente precisa trazer ela para perto, fazê-la protagonista", apontou. Enquanto isso, a gestão de mão de obra acontece "no gogó" – sai daqui, vai para ali, tira gente, bota gente, matando um leão por dia, sem fluxo. E a medição de produção vira caos – tem gente que passa metade do tempo correndo atrás do que foi feito só para fechar a folha de produção.

"Essa grande desconexão entre as áreas deságua na ponta do iceberg: a obra. Mas a obra não é culpada. A obra é resultado do somatório de tudo que aconteceu antes dela iniciar", avaliou.

A metodologia Agilean

Para endereçar essa desconexão sistêmica, a Agilean desenvolveu uma metodologia que traduz os princípios do Lean Construction em passos práticos de gestão de mão de obra:

Do me?todo ao fluxo integrado

Na prática:

  • Analisar pressupostos – sem índices de produtividade, quantidades e escopo bem definidos desde o orçamento, não há como dimensionar equipes nem comparar planejado versus realizado.
  • Gerenciar células de produção – agrupar atividades em lotes de produção claros facilita a medição. Tentar gerenciar por metro quadrado ou metro linear sem essa estrutura torna o controle impraticável.
  • Integrar recursos – cronograma não é só tempo. Cada pacote de trabalho precisa ter custo, qualidade, mão de obra e ERP integrados para gerar aderência real entre planejamento e execução.
  • Liberar produção com fluxo – ao passar do planejamento para a execução, é preciso questionar constantemente: pessoas, informações e materiais estão fluindo?
  • Evidenciar resultados – medir produtividade real (não só cálculos teóricos) permite criar sistemas de meritocracia baseados em dados.
  • Ativar pessoas – com evidências concretas, é possível motivar equipes por meio de reconhecimento fundamentado.
  • Nivelar e melhorar – estabelecer ciclo de melhoria contínua.

Voltando ao ponto inicial: o desperdício de mão de obra não deixa rastro. Não dá para ver no chão do canteiro, não aparece no contêiner. Mas quando você implementa uma metodologia estruturada como o Lean Construction – integrando fluxo de produto e fluxo de pessoas, fazendo o básico bem feito desde a Pirâmide de Maslow até a conexão sistêmica entre áreas –, esse desperdício deixa de ser invisível.

Com índices de produtividade reais, lotes de produção bem definidos, cronogramas com capilaridade, qualidade protagonista e medição estruturada, você finalmente consegue responder àquelas perguntas básicas que André fez no início: qual foi a produtividade real da equipe hoje? Quanto representa retrabalho? O que muda se uma equipe faltar?

Inclusive, André foi enfático sobre um ponto: tecnologia sem metodologia não resolve. "Não tem mágica. São duas coisas: método e tecnologia. A gente já quebrou muito a cabeça tentando empurrar tecnologia sem metodologia. Não funciona", revelou.

E sobre outros caminhos para enfrentar a escassez de mão de obra – como a industrialização –, a mensagem foi direta: "industrialização é vital. Mas se não mudarmos o método de gestão, não vamos conseguir chegar no potencial de gerar riqueza e infraestrutura que o setor tem. Em 2037, quando a mão de obra ficar cada vez mais escassa, não teremos solução", concluiu.

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Vem aí: otimização de custos na construção

A gestão de mão de obra é apenas uma das peças do quebra-cabeça da eficiência operacional. No palco do primeiro Incorpod presencial, Raphael Chelin, CEO da Celere, apresentou a palestra "Motor da otimização: a tríade para gerar redução de custos e lucros consistentes" – tema do nosso próximo artigo. Fique de olho no blog para não perder.

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