Construção registra avanço operacional e aposta em crédito para 2026

Enquanto custos da construção desaceleram e balanços surpreendem, programas federais e novas regras de crédito abrem espaço para maior dinamismo no próximo ano

Por Celere Publicado em 04/12/2025 Leitura: 7 min
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Construção registra avanço operacional e aposta em crédito para 2026

O mês de novembro trouxe um conjunto variado de indicadores para a construção civil, combinando pressão dos juros, avanço consistente do mercado imobiliário e ajustes relevantes no crédito habitacional.

No Giro de Notícias deste mês, detalhamos as seguintes manchetes:

  • Construtoras apresentam resultados sólidos no 3T25 em todos os segmentos
  • Setor imobiliário registra recorde de lançamentos no país
  • Caixa adota novas regras e amplia acesso ao crédito habitacional no SFH
  • Custo da construção desacelera e SINAPI registra segunda menor variação do ano
  • Reforma Casa Brasil deve liberar R$ 40 bilhões e pode impulsionar mercado de reformas em 2026

Boa leitura!

Construtoras apresentam resultados sólidos no 3T25 em todos os segmentos

As construtoras e incorporadoras listadas em bolsa apresentaram "resultados sólidos" no terceiro trimestre de 2025, tanto no segmento de baixa quanto no de média e alta renda, segundo avaliação do BTG Pactual.

Em relatório sobre a temporada de balanços, o banco destaca que o período foi marcado por expansão da receita líquida, avanço das margens e aumento do lucro por ação, impulsionados pela forte demanda por novas moradias.

O movimento reflete os efeitos das mudanças recentes no Minha Casa, Minha Vida e o ambiente de emprego aquecido no país, fatores que sustentam o apetite do consumidor mesmo em um cenário de juros elevados.

Os números do 3T25 revelam ainda que o ritmo continua forte entre as companhias focadas no público de baixa renda.

As empresas aumentaram as vendas, o que se refletiu em crescimento anual de 23% na receita consolidada das construtoras do segmento e em expansão de 1,8 ponto percentual na margem bruta. A combinação de volume maior com preços mais altos e ritmo firme de vendas resultou em crescimento médio de 48% no lucro por ação, e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) atingiu 37% no trimestre.

No grupo de companhias focadas em imóveis de médio e alto padrão, a expectativa dominante era de arrefecimento das vendas diante do custo elevado do crédito, mas isso não se confirmou. O BTG observa que a demanda segue firme, sustentada pela atividade econômica robusta e pelo baixo desemprego. Como resultado, o 3T25 trouxe aumento anual de 4% na receita consolidada, expansão de 2,0 pontos percentuais na margem bruta e crescimento de 54% no lucro por ação.

O banco avalia que as tendências observadas nos últimos trimestres permanecem claras: a procura por moradias populares segue forte, sem sinais de mudança no curto prazo, enquanto as construtoras de média e alta renda estão "desafiando o cenário macroeconômico", já que os lançamentos e as vendas se mantêm consistentes.

As perspectivas seguem positivas para a construção civil, com preferência pelo segmento de baixa renda, considerado mais defensivo e negociado a múltiplos atrativos, com preço sobre lucro entre 5 e 10 vezes.

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Minha Casa, Minha Vida: a maior janela de oportunidade do mercado imobiliário

Setor imobiliário registra recorde de lançamentos no país

O mercado imobiliário manteve a trajetória de expansão no terceiro trimestre de 2025, segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira de Indústria da Construção (CBIC).

Entre julho e setembro, o país registrou 108,8 mil lançamentos, acumulando 307,4 mil unidades no ano – alta de 8,4% ante os primeiros nove meses de 2024. As vendas somaram 101,3 mil unidades no trimestre e 312,2 mil no acumulado, crescimento de 5% na mesma comparação.

O destaque regional veio do Centro-Oeste, com avanço de 53,5% nos lançamentos no trimestre, enquanto o Sudeste liderou em volume absoluto, com 59,8 mil unidades. O Norte foi a única região em queda (-34,4%). No acumulado de 12 meses, o país alcançou 433 mil unidades lançadas, o maior patamar da série histórica.

O trimestre também mostrou forte atividade financeira: o VGL atingiu R$ 68,5 bilhões e o acumulado do ano chegou a R$ 198,9 bilhões (+22,9%). O VGV somou R$ 62,3 bilhões no trimestre e R$ 188,7 bilhões no ano (+13,2%).

O Minha Casa, Minha Vida permanece como principal motor do setor, representando 47% dos lançamentos e 44% das vendas do trimestre. Em São Paulo, a participação chegou a 66%. A oferta disponível do programa, hoje em 110,5 mil unidades, teria giro de apenas sete meses se mantido o ritmo atual de vendas.

O levantamento também aponta maior apetite do comprador: 48% dos entrevistados pretendem adquirir um imóvel nos próximos 24 meses, ante 46% no ano anterior. A geração Z se destaca, com intenção de compra de 61%, indicando renovação da base de consumidores.

Leia também:
Como lidar com a intenção de compra em máxima histórica e a transformação no perfil do consumidor

Caixa adota novas regras e amplia acesso ao crédito habitacional no SFH

Recentemente, entraram em vigor as novas diretrizes da Caixa Econômica Federal para o financiamento habitacional, ampliando o acesso ao crédito pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH). A principal mudança foi a elevação do teto do SFH de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões, com aumento do percentual máximo financiado para 80% na modalidade SAC e 70% na PRICE.

As medidas fazem parte da revisão das regras de direcionamento da poupança, que deve acrescentar R$ 40 bilhões ao volume de recursos do SBPE nos próximos dois anos. Só a ampliação das cotas de financiamento deve gerar R$ 3 bilhões adicionais em crédito em 2025, aumentando a liquidez e a base de compradores elegíveis.

Para especialistas, o ajuste corrige a defasagem do teto diante da valorização dos imóveis nos últimos anos e tende a ampliar o universo de clientes enquadrados no SFH. A mudança também deve favorecer o mercado de usados e os empreendimentos de padrão mais alto, que passam a se enquadrar na nova faixa de financiamento.

O novo modelo prevê ainda a utilização progressiva de 100% dos depósitos de poupança para crédito habitacional em até dez anos – ante os atuais 65%. A transição começa em 2026, quando o percentual sobe para 70% como fase de teste, e avança 1,5 ponto percentual ao ano a partir de 2027. A expectativa é que o aumento gradual de recursos contribua para destravar estoques e dar segurança a novos lançamentos.

Leia também:
O que é e como funciona o Sistema Financeiro da Habitação (SFH)

Custo da construção desacelera e SINAPI registra segunda menor variação do ano

O Índice Nacional da Construção Civil (SINAPI) variou 0,27% em outubro, segundo menor resultado de 2025, e abaixo dos 0,50% registrados em setembro. No acumulado de 12 meses, o indicador recuou para 5,30%, ante 5,58% no período anterior, mantendo trajetória de desaceleração de custos.

O custo nacional por metro quadrado passou de R$ 1.872,24 para R$ 1.877,29, sendo R$ 1.071,42 referentes a materiais e R$ 805,87 à mão de obra. A parcela dos materiais avançou 0,31%, ritmo menor que em setembro (0,38%) e inferior ao observado há um ano. A mão de obra subiu 0,22%, também em desaceleração frente ao mês anterior.

De janeiro a outubro, os materiais acumulam alta de 3,52%, enquanto a mão de obra soma 6,65%. Em 12 meses, as variações chegam a 4,29% e 6,73%, respectivamente. Regionalmente, o Norte teve a maior variação do mês (0,95%), influenciado por aumentos salariais no Pará, que registrou a maior alta estadual (1,84%). Nordeste (0,27%), Sudeste (0,15%), Sul (0,20%) e Centro-Oeste (0,21%) apresentaram movimentos moderados.

Reforma Casa Brasil deve liberar R$ 40 bilhões e pode impulsionar mercado de reformas em 2026

Entrou em vigor no dia 3 de novembro o Reforma Casa Brasil, novo programa habitacional do Governo Federal que amplia o acesso a crédito para reformas, ampliações e adequações de moradias.

O programa disponibiliza R$ 40 bilhões em financiamentos, sendo R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para famílias com renda de até R$ 9.600 e R$ 10 bilhões do SBPE para faixas superiores.

As linhas contam com juros entre 1,17% e 1,95% ao mês, dependendo da renda, e prazos de financiamento de até 60 meses, podendo chegar a 180 meses nas rendas mais altas. A contratação é digital e prevê liberação de 90% dos recursos após aprovação da análise de crédito e envio das fotos da reforma, com o saldo liberado após a conclusão dos serviços.

O crédito pode ser usado para compra de materiais, contratação de mão de obra e serviços técnicos, abrangendo também imóveis de uso misto. O programa mira principalmente moradias com problemas estruturais, como infiltrações, telhados danificados e instalações elétricas ou hidráulicas precárias.

Segundo estudo da ABRAMAT, a cadeia da construção cresceu 4,4% em 2024, mas desacelerou em 2025 diante do endividamento das famílias e do custo do crédito. Para 2026, o Reforma Casa Brasil deve mudar o cenário: a estimativa é que R$ 35,2 bilhões virem demanda direta na cadeia, sendo R$ 12,3 bilhões destinados à indústria de materiais. O impacto inicial deve aparecer nos distribuidores, com projeção de crescimento entre 0,9% e 2,9% no próximo ano, dependendo da execução do programa.

Foto em destaque: C Dustin na Unsplash