Enquanto Abramat reduz projeção e vendas de cimento recuam, déficit habitacional atinge menor patamar da história e FIIs se consolidam como alternativa de financiamento imobiliário
Setembro trouxe sinais mistos para a construção civil brasileira. De um lado, a indústria de materiais reviu para baixo suas projeções e o consumo de cimento caiu em todas as regiões do país. Por outro, o déficit habitacional atingiu o menor patamar da história, reforçando o impacto da retomada do Minha Casa, Minha Vida. O mês também foi marcado pela consolidação dos fundos imobiliários como alternativa ao financiamento imobiliário, em um cenário de saques recordes da poupança. Já os custos da construção, medidos pelo SINAPI, aceleraram, pressionados principalmente pela mão de obra. A seguir, apresentamos os detalhes desses destaques do mês. Acompanhe!Abramat reduz projeção de crescimento da indústria de materiais
A Associação Brasileira de Materiais de Construção (Abramat) revisou para baixo a expectativa de expansão da indústria de materiais de construção neste ano. A previsão, que era de 2,8%, caiu para 1,8% após o setor registrar queda de 0,3% no faturamento acumulado frente a 2024.
Em nota, Paulo Engler, presidente da associação disse que os resultados acumulados até agosto apontaram a necessidade de revisão na perspectiva anual, para manter uma visão sólida e realista do setor. Segundo o Índice Abramat/Ecconit, em julho houve retração de 4,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, apesar da leve alta de 0,9% sobre junho. Já em agosto, o desempenho foi misto: avanço de 1% frente ao mês anterior, mas queda de 0,3% na comparação anual.Brasil registra o menor déficit habitacional da história
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Imagem criada por jcomp - www.freepik.com[/caption]
O déficit habitacional relativo do Brasil caiu para 7,6% em 2023, o menor índice já registrado desde 2009, ano de criação do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Os dados são da Fundação João Pinheiro (FJP) e mostram a redução de 10,2% para 7,6% no período, refletindo o impacto da retomada do programa habitacional.
Além disso, segundo a pesquisa, entre 2022 e 2023, houve recuo de 3,8% na quantidade de famílias sem imóvel próprio para morar. Com isso, o déficit habitacional absoluto passou de 6,21 milhões de domicílios para 5,97 milhões no período. O levantamento também revela os gargalos que ainda precisam ser enfrentados. O componente mais desafiador é o ônus excessivo com aluguel, que atinge 3,66 milhões de domicílios (61,3% do déficit). Pela primeira vez, a FJP identificou a sobreposição desse problema com más condições de moradia: 1,3 milhão de famílias vivem sob dupla pressão, combinando gasto excessivo e inadequação habitacional. O governo federal vem ampliando as políticas de acesso à moradia, com medidas como a criação da faixa “Minha Casa, Minha Vida – Classe Média”, voltada a famílias com renda entre R$ 8,6 mil e R$ 12 mil, com juros de 10% ao ano e imóveis de até R$ 500 mil. Outra iniciativa prevista é o lançamento de uma linha de crédito para reforma de casas populares, oferecendo juros acessíveis e assistência técnica para melhorias estruturais. Regionalmente, as maiores quedas no déficit habitacional ocorreram no Nordeste (-7,2%) e no Norte (-5,7%), seguidos pelo Sudeste (-5,3%) e pelo Sul (-3,4%). O único aumento foi registrado no Centro-Oeste, onde o déficit habitacional cresceu 17,5%.Leia também: Minha Casa, Minha Vida: a maior janela de oportunidade do mercado imobiliário
Venda de cimento recua em todas as regiões do país
O consumo de cimento no Brasil registrou queda de 2,5% em agosto frente ao mesmo período de 2024, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Snic). No total, foram comercializadas 6 milhões de toneladas no mês.
As maiores retrações ocorreram no Sul (-6,9%) e no Norte (-4,2%). No Sudeste, maior mercado consumidor, a queda foi de 2,1%, com 2,75 milhões de toneladas vendidas. Nordeste e Centro-Oeste recuaram 0,6% e 0,7%, respectivamente. De acordo com o Snic, a redução também reflete o desempenho do Minha Casa, Minha Vida, que teve lançamentos de empreendimentos 15,5% menores no último trimestre em relação a 2024. O programa é um dos principais motores da demanda por cimento no país. Apesar da retração, houve alta quando considerada a média por dia útil: 255,3 mil toneladas em agosto, avanço de 1,6% sobre o mesmo mês do ano passado e acima das 242,5 mil toneladas por dia útil registradas em julho.Fundos imobiliários captam quase R$ 30 bilhões em 2025 e reforçam papel no financiamento do setor
Os fundos de investimento imobiliário (FIIs) se consolidam cada vez mais como alternativa de financiamento.Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), compilados pela InfoMoney, as ofertas públicas de FIIs somam R$ 52,5 bilhões em 2025, incluindo emissões em andamento e de fundos não listados – acima dos R$ 45,7 bilhões do mesmo período do ano passado.
Considerando apenas as ofertas encerradas, o volume captado até setembro chegou a R$ 29,6 bilhões, abaixo dos R$ 42,3 bilhões de 2024, mas ainda expressivo diante do ambiente de juros altos. O destaque entre os fundos foi o Oportunidades Imobiliárias, que levantou quase R$ 3 bilhões, seguido pelo TRX Real Estate (TRXF11), com R$ 1,25 bilhão. Na visão de Flávio Pires, analista sênior de fundos imobiliários do Santander, considerando o cenário ainda desafiador para renda variável e para os FIIs, o volume de captações é positivo. Os juros elevados (Selic em 15%) reduzem a atratividade de ativos de risco, mas o mercado ainda mostra força. A alta da Selic também explica a perda de fôlego da caderneta de poupança, principal fonte de recursos para o crédito imobiliário tradicional. Em 2025, os saques líquidos superaram R$ 60 bilhões, o que abre espaço para alternativas como FIIs e LCIs. O estoque total de recursos aportados via fundos passou de R$ 247 bilhões em 2024 para R$ 272 bilhões em 2025, um aumento de 10%. Os CRIs registraram crescimento ainda maior (+30%), reforçando a diversificação das fontes de recursos para o mercado imobiliário brasileiro.
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SINAPI registra variação de 0,79% em agosto
O Índice Nacional da Construção Civil (SINAPI) variou 0,79% em agosto, segunda maior alta do ano, atrás apenas de junho. O resultado ficou 0,48 ponto percentual acima de julho (0,31%) e levou o acumulado em 12 meses para 5,42%, acima dos 5,25% registrados no período anterior.
O custo nacional da construção por metro quadrado passou de R$ 1.848,39 em julho para R$ 1.863,00 em agosto. Desse valor, R$ 1.064,10 correspondem aos materiais e R$ 798,90 à mão de obra. A parcela dos materiais subiu 0,50%, praticamente estável em relação a agosto de 2024 (0,50%). Já a mão de obra avançou 1,18%, puxada por acordos coletivos firmados no período, acima dos 0,42% de julho e dos 0,81% de agosto do ano passado. No acumulado de janeiro a agosto, os materiais variaram 2,81%, enquanto a mão de obra subiu 5,73%. Em 12 meses, os resultados ficaram em 4,91% para materiais e 6,14% para mão de obra. Entre as regiões, o Sul liderou com 2,19%, influenciado pela alta da mão de obra em todos os estados. O Centro-Oeste ficou em 0,81%, seguido do Norte (0,73%), Sudeste (0,65%) e Nordeste (0,36%). No recorte estadual, destaque para Mato Grosso do Sul (2,97%), Paraná (2,79%) e Rio Grande do Sul (2,66%).