Estudo feito pela Nexxa Engenharia avalia duas soluções para a distribuição elétrica vertical (sistema convencional e barramento blindado) e identifica diferença de R$ 609 mil entre elas
Verdade seja dita: para comparar dois sistemas de distribuição elétrica de maneira objetiva, consultar o preço dos materiais é apenas a primeira etapa de um longo processo.
Além disso, se faz necessário projetar o empreendimento nas configurações que se quer comparar, levantar quantitativos, calcular a mão de obra e equalizar o escopo dos orçamentos. Ou seja, na prática, o que a gente está falando é que é fundamental desenvolver duas versões do projeto.
Por mais que esse seja um investimento que raramente cabe na contratação, foi exatamente isso que a Nexxa Engenharia decidiu fazer para poder entender o impacto do sistema convencional e do barramento blindado no custo da obra, no tempo de execução e outros aspectos do empreendimento.
O estudo comparativo foi feito a partir de um projeto de uma torre residencial de médio padrão, com mais de 30 pavimentos, cerca de 100 metros de altura e aproximadamente 150 unidades consumidoras de energia.
O edifício, que será executado com barramento blindado, foi projetado com o sistema convencional de cabos para que as duas alternativas pudessem ser comparadas sob os mesmos critérios.
O resultado foi uma diferença de R$ 609.478,89 no investimento inicial. Enquanto o sistema convencional foi orçado em R$ 1.096.592,62, a solução com barramento blindado chegou a R$ 487.113,73, uma redução de 55,6% no custo total da distribuição vertical.

Em uma conversa com Raphael Chelin, CEO da Celere, Cristiano Lisboa, diretor técnico e sócio da Nexxa, detalhou os critérios e os impactos das duas soluções.
A conversa deu origem a uma série de dois artigos sobre o tema. Neste primeiro, apresentamos a comparação econômica entre os sistemas e os fatores que explicam a diferença de R$ 609 mil identificada no estudo. No próximo, vamos aprofundar os riscos, as exigências técnicas e os cuidados de projeto, instalação e manutenção que precisam ser considerados antes da adoção do barramento blindado.
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As diferenças entre o barramento blindado e o sistema convencional de distribuição elétrica
No sistema convencional de distribuição elétrica, cada apartamento é conectado ao quadro de medição por um conjunto próprio de cabos e eletrodutos. Em um edifício com aproximadamente 150 unidades, isso significa que é preciso levar centenas de condutores pela prumada. Os cabos que atendem tanto aos primeiros pavimentos quanto aos apartamentos localizados a mais de 100 metros do térreo ocupam simultaneamente os shafts dos andares inferiores.
O barramento blindado (também chamado de busway), por sua vez, substitui esses longos feixes por um conjunto pré-fabricado de barras condutoras de cobre ou alumínio, protegido por um invólucro metálico. Na prática, o barramento percorre verticalmente a torre e, em cada pavimento, derivações mais curtas fazem a ligação até as unidades.

A diferença aparece primeiro na prumada. No sistema convencional, os cabos destinados a todos os apartamentos sobem juntos pelos pavimentos inferiores. Isso amplia o espaço necessário no shaft, exige mais eletrodutos e caixas de passagem e multiplica as operações de lançamento, fixação e organização no canteiro. "Imagine que, no térreo, está subindo também o cabo que vai para o 25º andar. Então você precisa ter um espaço muito maior", explica Raphael.
Com o barramento blindado, a distribuição vertical fica concentrada em poucas barras, e os cabos percorrem apenas a distância entre o barramento e cada unidade. "Em vez de subir 150 apartamentos x cinco cabos elétricos, você sobe com o barramento e, em cada pavimento, faz a ligação até os apartamentos", resume Cristiano. Como os medidores podem ser distribuídos pelos andares, a solução também pode reduzir a área ocupada pelos quadros no térreo e permitir a leitura centralizada do consumo.
Além disso, a execução também muda. O sistema convencional concentra mais atividades manuais na obra, enquanto o barramento chega pré-fabricado e reduz operações repetitivas. Seu uso, porém, exige planejamento antecipado. Ou seja, as dimensões precisam estar fechadas antes da fabricação, a montagem requer equipe especializada e a solução deve seguir as regras da concessionária e o plano de manutenção do fabricante.
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O que a comparação entre sistema convencional e barramento blindado precisa considerar

Para evitar uma conclusão distorcida, a Nexxa comparou arquiteturas completas para o mesmo edifício, não confrontou o preço de uma barra com o de um cabo.
Ou seja, no orçamento do barramento blindado entraram o fornecimento dos componentes, a instalação e o comissionamento. Na solução convencional, foram considerados os materiais e a mão de obra necessários para executar a prumada por cabos.
A redução ocorreu nas duas principais parcelas do orçamento. O custo dos componentes caiu 56,6% (ou R$ 569.478,89), enquanto a mão de obra diminuiu 44,4%, uma diferença de R$ 40 mil.
O que acontece na mão de obra é que, como o barramento chega pré-fabricado, a equipe concentra o trabalho na preparação das passagens entre as lajes e na montagem dos módulos, conexões e derivações. No sistema convencional, precisa passar, fixar e organizar uma quantidade muito maior de eletrodutos e cabos ao longo da execução. Ainda assim, Cristiano faz uma ressalva: "quase todo eletricista sabe montar o sistema convencional. No busway, você precisa de uma equipe especializada e homologada pelo fornecedor".
Ou seja, o barramento exige profissionais capacitados para o sistema adotado, além de controle das conexões e um comissionamento adequado. Portanto, a economia decorre da redução das operações repetitivas no canteiro.
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Altura e número de unidades ampliam o impacto sobre o custo

A altura e a quantidade de unidades consumidoras por pavimento são centrais para entender o resultado desse estudo comparativo.
E a explicação é simples. Quanto mais longo o percurso dos cabos, maior é a queda de tensão entre a origem da alimentação e o ponto de consumo. Portanto, para manter a tensão dentro dos limites do projeto, pode ser necessário aumentar a seção dos cabos que abastecem os pavimentos mais altos.
Cristiano usa um chuveiro de 7.500 watts como exemplo para ilustrar o efeito da altura. "A potência do chuveiro sempre se mantém, o que muda é a tensão conforme ele fica mais longe da fonte de alimentação. Para corrigir isso, não se envia mais potência, aumenta-se a bitola do cabo", detalha. Na prática, em uma torre com muitas unidades, substituir, por exemplo, cabos de 10 mm² por cabos de 16 mm² nos percursos mais longos multiplica o impacto sobre o orçamento.
No barramento blindado, a distribuição principal é feita por um conjunto dimensionado para correntes elevadas, e os cabos ficam restritos a percursos menores entre o barramento e cada apartamento. É por isso que a vantagem tende a crescer em torres mais altas e com várias unidades consumidoras por pavimento.
A escolha, entretanto, não altera a demanda que a concessionária precisa disponibilizar para o empreendimento. Transformador, cabo de entrada e disjuntor geral são dimensionados de acordo com as cargas previstas no projeto. A diferença entre as soluções está na distribuição interna e nas medidas necessárias para manter a queda de tensão dentro dos limites. Portanto, o estudo não atribui ao barramento uma redução da energia que a concessionária precisa fornecer.
Os efeitos da decisão que a planilha de custos não captura
Mesmo expressiva, a economia de R$ 609 mil não representa todo o impacto potencial da escolha pelo barramento blindado.
O sistema convencional precisa acomodar no térreo os quadros de medição e reservar shafts capazes de receber os cabos destinados a todos os pavimentos. Segundo a estimativa do estudo, apenas os quadros poderiam demandar de 40 a 50 m² no térreo da torre analisada. "E não é só o espaço lá embaixo", observa Raphael. "Talvez você perca espaço de apartamento ou de unidade para vender."
Com o barramento e a medição distribuída pelos pavimentos, essa área pode ser liberada para outros usos, dependendo das regras da concessionária e do projeto arquitetônico. Em um empreendimento, isso pode significar preservar uma sala comercial, ampliar uma área comum ou evitar a perda de área das unidades. Esse valor imobiliário não foi somado à diferença de 55,6%.
Há ainda efeitos sobre a logística. A solução convencional demanda receber, movimentar e armazenar um volume maior de cabos e eletrodutos, materiais de alto valor e particularmente sujeitos a furto no canteiro. O barramento reduz esse volume, embora exija planejamento antecipado, levantamento dimensional preciso e atenção ao prazo de fabricação.
A melhor solução é a que fecha a conta do empreendimento
O resultado do estudo favorece claramente o barramento blindado neste edifício, mas não transforma a solução em uma resposta universal.
Em prédios menores, com poucas unidades consumidoras por pavimento, correntes moderadas e espaço técnico disponível, o sistema convencional pode continuar mais competitivo e mais flexível diante de alterações tardias.
A viabilidade também depende das regras da concessionária responsável pela região. O sistema e a configuração de medição precisam ser aceitos antes da contratação. Como a disponibilidade de medidores e os padrões técnicos variam, a mesma solução pode ser permitida sob determinadas condições em uma área de concessão e não estar disponível em outra.
Outra diferença aparece após a entrega. A prumada convencional tende a demandar poucas intervenções quando bem dimensionada e preservada. Já o barramento requer um plano de manutenção compatível com as orientações do fabricante e as condições de instalação. Para o case, foi estimada uma verba de R$ 5.000 por ano, com inspeções e eventuais ajustes. Mesmo que esse valor fosse mantido por 25 anos, o custo acumulado da solução chegaria a R$ 612.113,73, ainda R$ 484 mil abaixo do investimento inicial do sistema por cabos. A comparação é apenas indicativa, porque a manutenção da solução convencional não foi orçada no estudo.
O principal aprendizado do case está menos na superioridade de uma tecnologia e mais na forma de tomar a decisão.
Se a Nexxa tivesse comparado apenas o preço unitário de cabos e barras, não capturaria os efeitos sobre mão de obra, shafts, quadros, logística, queda de tensão e área útil. Foi o desenvolvimento das duas arquiteturas completas que tornou visível a economia.
Antes de escolher, incorporadora, construtora e projetistas precisam avaliar a altura do edifício, o número de unidades por pavimento, as correntes da prumada, o espaço disponível, a estratégia de medição, as exigências da concessionária, a disponibilidade de mão de obra e o custo de todo o ciclo de vida. Também é necessário compatibilizar a solução no modelo BIM antes da compra, especialmente porque o barramento depende de definições antecipadas e de componentes fabricados para o projeto.
Neste empreendimento, os números responderam à pergunta: o barramento blindado reduziu o investimento inicial em 55,6%. Em outro edifício, a resposta pode ser diferente. O método de comparação, porém, permanece o mesmo: duas soluções completas, submetidas aos mesmos critérios técnicos e econômicos.
Imagem de destaque: Raze Solar na Unsplash