Entenda como BIM 3D, 4D e 5D conectam viabilidade, quantitativos, orçamento e planejamento para antecipar decisões e corrigir desvios na obra
Quando se fala em BIM, é comum que a primeira imagem que venha à mente seja a de um edifício modelado em três dimensões. E a associação faz sentido. Afinal, o recurso visual facilita a leitura do projeto, torna interferências mais evidentes e ajuda diferentes disciplinas a conversar. Mas, para Fabio Giamundo, concentrar a atenção apenas no modelo reduz o alcance (e o valor) do processo.
"O BIM é uma virada de chave, principalmente quando a gente olha para a letra 'I', que é a mais importante: a inteligência que está no processo", afirmou o fundador e CEO da PRIME3 Engenharia durante a 15ª edição do Incorpod.
Na verdade, na sigla BIM, o "I" corresponde à informação (information, no original em inglês, de Building Information Modeling). Porém, ao aproximá-lo da ideia de inteligência, Fabio valoriza o que transforma a modelagem em instrumento de gestão, que nada mais é do que a sua capacidade de organizar dados, relacioná-los e utilizá-los para comparar caminhos antes que uma escolha se torne cara demais para mudar.
Essa distinção, aliás, ajuda a compreender uma frustração de Mauro de Couet, diretor-executivo da Nexxa Engenharia e coapresentador do Incorpod.
Mauro conta que, em 2016, quando a Nexxa passou a trabalhar efetivamente com BIM, ele acreditava que o mercado brasileiro chegaria a 2026 com 90% das empresas dentro da metodologia. Porém, segundo ele, ainda existem incorporadoras com dezenas de obras contratando projetos em 2D. Para piorar, em alguns casos, pagando por uma segunda representação do mesmo empreendimento, modelada depois.
Esse descompasso tem menos a ver com a disponibilidade da tecnologia do que com o uso que se faz dela. Afinal, um edifício em 3D pode continuar sendo apenas outra forma de desenho, mas o BIM vai além quando a informação contida no modelo passa a apoiar decisões sobre produto, quantidade, custo, sequência de execução e prazo.
As chamadas dimensões do BIM organizam esses usos.
De maneira prática, o 3D representa e compatibiliza o que será construído; o 5D conecta o modelo a quantitativos e custos; e o 4D relaciona essas informações ao cronograma e à sequência de execução. Ou seja, são camadas que acompanham o empreendimento da viabilidade ao canteiro e ajudam a responder a perguntas diferentes em cada etapa.
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Quando o BIM começa a gerar valor antes do lançamento

A primeira decisão apoiada pelo BIM pode acontecer muito antes da obra. Mauro descreveu a rotina de incorporadoras que desenvolvem um estudo preliminar em BIM, extraem quantitativos, orçam o empreendimento, testam o produto no mercado e só então fazem o lançamento.
Nesse estágio, ele explica que o modelo ajuda a verificar se o produto e a conta se sustentam enquanto ainda existe liberdade para rever área, padrão, escopo e sistemas construtivos. Uma alteração no estudo pode gerar novas quantidades e estimativas, permitindo comparar cenários antes que o empreendimento assuma compromissos difíceis de desfazer.
Fabio concordou com o valor dessa antecedência. "Quanto mais tempo você tem para estudar e simular, mais assertivo você vai ser", destacou. Isso não significa, porém, que se deve prolongar indefinidamente o desenvolvimento. O próprio convidado do Incorpod lembrou que ciclos mais longos também têm custo financeiro. O ganho está em usar o período disponível para substituir hipóteses genéricas por informações que sustentem as decisões.
Essa, aliás, também é a ligação entre BIM e engenharia pré-obra. Nesse momento, antecipar não significa apenas produzir o projeto mais cedo, mas colocar projeto, quantitativos, orçamento e planejamento para conversar enquanto o empreendimento ainda consegue absorver mudanças.
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BIM 3D para antecipar conflitos no projeto
Para que a informação acompanhe o empreendimento, a própria forma de projetar precisa mudar.
Fabio recordou que, nas primeiras implantações de BIM que acompanhou, entre 2015 e 2017, muitos projetistas ainda desenvolviam o trabalho em 2D e outra equipe era contratada depois para modelar o projeto concluído.
Além de acrescentar uma etapa e alongar o processo, o arranjo criava uma zona cinzenta de responsabilidade, já que quem modelava encontrava a interferência, mas não era autor do projeto e nem sempre tinha autonomia para resolvê-la; e quem projetava, por sua vez, não necessariamente revisava o modelo produzido por terceiros.
Por isso, Fabio defende que o projeto já "nasça modelando" e que a documentação em 2D seja extraída do modelo, não o contrário. Isso porque quando autoria e modelagem permanecem no mesmo fluxo, a coordenação fica mais ágil e as interferências podem ser discutidas por quem efetivamente responde pelas soluções.
"A parte visual é muito mais fácil para que a gente consiga entender os clashes, quais são os problemas, quais são as soluções", explicou. Transições e instalações, que costumam concentrar dificuldades no início da execução, podem ser estudadas enquanto ainda são linhas e parâmetros, em vez de disputarem o mesmo espaço no canteiro.
É nesse ponto que o 3D entrega seu primeiro resultado: não apenas mostrar melhor o edifício, mas criar uma base comum para que projetistas e equipes de obra antecipem conflitos e decidam como resolvê-los.
BIM 5D para transformar geometria em custo no orçamento

Se o BIM 3D ajuda a responder o que será construído e onde existem interferências, o 5D conecta os componentes modelados às quantidades, aos serviços e aos custos necessários para executá-los. Assim, os efeitos de uma mudança de projeto podem chegar ao orçamento e à viabilidade.
Essa conexão muda a rotina da equipe. Em um processo convencional, boa parte do tempo do orçamentista é consumida pelo levantamento manual de quantidades. Quando os dados podem ser extraídos do modelo, o profissional ganha espaço para verificar premissas, analisar processos e comparar alternativas.
"Vou ganhar tempo da equipe fazendo engenharia de custo, olhando para os processos e não construindo número", resumiu Fabio. "Em vez de construir números, a gente ganha tempo analisando e propondo outras alternativas", reforçou.
A automação, portanto, não reduz a importância da engenharia. O que ela faz é deslocar o esforço de uma atividade operacional para a interpretação de números, o questionamento de escolhas e a avaliação de como cada solução repercute sobre custo, prazo e produtividade. Ou seja, os profissionais passam a focar naquilo que exige repertório técnico.
É importante destacar, porém, que esse ganho depende da confiabilidade do modelo. Fabio reconheceu que, quando a equipe não confia na qualidade da modelagem, a PRIME3 acaba fazendo também o levantamento manual para conferir o resultado. Assim, a automação passa a conviver com uma segunda conta, e parte da economia de tempo desaparece.
Além disso, um modelo visualmente bem resolvido não é necessariamente adequado ao orçamento. Os elementos precisam estar estruturados e parametrizados de acordo com o uso esperado, e projetistas e orçamentistas devem combinar quais informações serão necessárias, quem será responsável por incluí-las e qual nível de desenvolvimento o modelo precisa atingir em cada fase.
É por isso que implementar BIM não se resume a comprar um software ou exigir uma entrega em 3D. A metodologia depende de processos, padrões e responsabilidades definidos desde o início. No guia completo BIM e o orçamento na construção civil, mostramos como o Plano de Execução BIM ajuda a alinhar usos, ferramentas, níveis de desenvolvimento e papéis das equipes.
Sem essa organização, a empresa apenas digitaliza a fragmentação que já existia e cada área continua reconstruindo a informação de que precisa. Quando a base é comum e consistente, uma alteração pode ser acompanhada em seus efeitos sobre quantidade e custo, e, na etapa seguinte, sobre sequência e prazo.
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BIM 4D aproxima planejado e realizado na execução
O BIM 4D acrescenta a dimensão do tempo a essa equação.
Os elementos do modelo são relacionados ao cronograma e à sequência de atividades, formando uma construção digital que permite visualizar como a obra deveria avançar antes mesmo da mobilização do canteiro.
Na PRIME3, esse trabalho é feito com o Synchro. Durante a execução, a tela pode ser dividida entre previsto e realizado. E aí de um lado se vê o estágio planejado; do outro, o que efetivamente foi construído. A diferença deixa de aparecer apenas como atraso consolidado no fim do mês e passa a orientar planos de ação enquanto ainda existe tempo para corrigir a rota.
Fabio destaca, porém, que o BIM não elimina a incerteza própria da construção. Sua contribuição está em revelar o desvio mais cedo e dar à equipe melhores condições para compreender sua origem e intervir.
Raphael Chelin, CEO da Celere, levou o raciocínio adiante, lembrando que maturidade é saber identificar quando acontece um desvio, onde ele nasceu e por quê. Sem controle, a empresa pode descobrir o problema quando já não há como reagir. Com informação, cada ocorrência também alimenta decisões melhores no empreendimento seguinte.
O melhor problema é aquele que não chega ao canteiro
Este debate que aconteceu durante do Incorpod ajuda a desfazer a expectativa comum de que o melhor resultado do BIM aparece como uma intervenção visível na obra. Nem sempre! Pode ser uma interferência eliminada antes da execução, uma quantidade atualizada sem refazer todo o levantamento ou um desvio percebido quando ainda existe margem para agir.
Mauro sintetizou a base necessária para esse ciclo em três entregas: "um modelo assertivo para gerar quantitativos, uma compatibilização e um executivo que facilite na obra". As demais dimensões ampliam o uso da informação, mas não compensam um modelo que não cumpre essas funções.
Visto dessa forma, o BIM além do 3D não é uma coleção de recursos adicionados ao modelo, mas um processo no qual a informação acompanha o empreendimento da viabilidade à execução, conectando projeto, quantitativos, custo e prazo. Cada camada deve aumentar a capacidade da equipe de antecipar uma pergunta, comparar uma alternativa ou agir diante de um desvio.
A virada descrita por Fabio está menos na imagem produzida e mais no trabalho que essa base permite fazer. Quando os profissionais deixam de gastar energia construindo números e passam a analisar o que eles revelam, o BIM finalmente se torna uma ferramenta de decisão.
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Imagem de destaque: Evgeniy Surzhan na Unsplash