Mão de obra acumula quase o dobro de inflação de material [ConstruFoco #70]

Sinapi desacelerou para 0,36% em maio, mas mão de obra acumula 9,56% em 12 meses, quase o dobro dos materiais (5,01%). Como ler o índice para proteger margem.

Por Raphael Chelin Publicado em 30/06/2026 Leitura: 5 min
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Mão de obra acumula quase o dobro de inflação de material [ConstruFoco #70]

Se você acompanha a ConstruFoco há algum tempo, sabe que faz parte da minha rotina analisar os números dos principais indicadores da construção civil brasileira para dividir algumas reflexões por aqui. Meu objetivo é sempre te ajudar a pensar gestão de obras e orçamento com um olhar voltado a dados, porque a nossa experiência na Celere mostra que isso faz muita diferença nos resultados de construtoras e incorporadoras.

Hoje, entrou no meu radar o Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil) de maio. À primeira vista, o resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pode parecer mais uma fotografia de custo se acomodando. Olha só os destaques:

No mês, o índice apresentou variação de 0,36%, ficando 0,36 ponto percentual abaixo da taxa de abril (0,72%). Os materiais desaceleraram fortemente (de 0,83% em abril para 0,53% em maio) e a mão de obra também caiu (de 0,57% para 0,14%).

Mas é quando a gente olha para o acumulado em 12 meses que a análise fica mais interessante. Isso porque materiais e mão de obra estão em curvas diferentes. Os números são estes:

  • Materiais em 12 meses: 5,01%
  • Mão de obra em 12 meses: 9,56%

A mão de obra está acumulando custo em ritmo quase duas vezes maior do que o material, na curva consolidada do último ano. Para colocar em perspectiva, a discussão pública sobre custo da construção se concentra no petróleo, no INCC e no preço do cimento. Porém, a variável que mais pressionou o orçamento nos últimos 12 meses foi a mão de obra.

Esse descolamento conecta direto com o que tratei na ConstruFoco #69, quando olhei o emprego em alta no setor (120,5 mil vagas no 1º trimestre, construção como segunda atividade que mais contrata no país). Aqui é o outro lado do mesmo dado: contratação forte significa pressão de custo em mão de obra, e essa pressão está aparecendo no Sinapi.

A mão de obra na construção é hoje uma curva menos elástica do que a de materiais. Isso porque treinamento de trabalhador novo demora e a especialização da função aumentou com a industrialização. O resultado é custo unitário que sobe rápido quando a demanda aperta e desce devagar quando ela arrefece.

Como traduzir os índices em números confiáveis no orçamento

O hábito de utilizar o custo total de construção e aplicar correções por índices agregados (como o Sinapi de 0,36% ou o INCC-M de 1,04%) distorce a análise. Isso ocorre porque o indicador agregado reflete a média de curvas que seguem tendências divergentes.

Para quem está produzindo agora, isso tem três implicações:

  • Material está dando trégua, mas é uma janela. A desaceleração de 0,30 ponto percentual nos materiais é real, mas Augusto Oliveira, gerente da pesquisa do IBGE, fez uma observação que vale guardar: mesmo com a queda, a taxa de maio é a terceira maior desde outubro de 2024. Ou seja, trégua não é reversão.
  • Mão de obra é a variável de custo que mais pressiona margem agora. Em 12 meses, há 9,56% de inflação acumulada nessa linha. Para qualquer obra em fase inicial ou intermediária, com massa salarial pesando no fluxo, isso entra direto na margem.
  • O ranking regional mostra que custo é leitura local. Em maio, o Sul liderou (0,44%), com o Paraná destacando-se (0,65%). A Bahia foi o estado com maior variação (0,92%). O Sinapi nacional médio não diz a verdade da sua obra, diz a média do país.

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O que o orçamento precisa mostrar

Em cenário onde mão de obra acumula quase o dobro de inflação que material, o orçamento de mão de obra precisa estar aberto por categoria. Inclusive, no caso dos mercados sul e sudeste, onde a subempreitada predomina, é fundamental identificar cada tipo de contratação. Do contrário, informações críticas ficarão fora do radar.

Há três coisas que o orçamento detalhado revela e a leitura agregada esconde:

  • Quanto cada categoria de mão de obra (encarregado, pedreiro, servente, especialista) acumulou de reajuste no período de execução. Cada categoria tem dissídio próprio e composição diferente. A média do Sinapi não captura isso.
  • Como a composição da equipe da obra  responde aos reajustes de custos. Obras com alto volume de serviços especializados absorvem impactos de mão de obra de forma distinta de serviços sem especialização.
  • Qual é o impacto da curva de mão de obra na margem do empreendimento. Importante mensurar o peso real do custo total de mão de obra (própria e terceirizada) sobre o VGV e a margem do negócio, monitorando seu comportamento e reajustes ao longo do tempo.

O detalhamento do orçamento que entrega previsibilidade

Orçar detalhadamente cada item de custo garante precisão e diferencia quem protege sua margem em cenários de forte distorção inflacionária. Na prática, embora o Sinapi agregado ofereça uma visão macro útil, ele é insuficiente para ajustes orçamentários precisos ou para entender o impacto real na “última linha” (margem).

A metodologia da Celere combina orçamento detalhado por categoria de custo e acompanhamento contínuo de obras. Isso garante que pressões inflacionárias em “linhas específicas” (como mão de obra agora) sejam calculadas rotineiramente. Assim, é possível antecipar a tendência do custo final e compará-la ao orçado original, permitindo correções de rota que minimizam danos à rentabilidade do empreendimento.

Se você está revisando orçamento de obras em andamento ou estruturando viabilidade de novos empreendimentos, entre em contato com a gente. Podemos conversar sobre o seu caso.

Boa semana!

Raphael Chelin
CEO


Imagem de destaque: SAMS Solutions na Unsplash