Há alguns dias, o Ministério do Trabalho divulgou os números do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) que revelam que a construção civil criou 120.547 postos formais de trabalho no primeiro trimestre de 2026. Segundo o MT, o total de trabalhadores com carteira assinada na construção chegou a 3,063 milhões em todo o país.
Eu olho para esse dado com uma lente que vai além do emprego. O que eu quero entender é o que o nosso setor está sinalizando com esses números. Convido você a pensar sobre isso comigo.
A construção como motor do emprego formal
Em março, a construção criou 38.316 postos, mais do que a indústria de transformação (28.336) e o comércio (27.267) juntos. Para um setor que historicamente é tratado como reflexo da economia, estar no topo do ranking de contratação é uma posição diferente.
Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), contextualizou o significado desse volume da seguinte forma: o trimestre repôs cerca de 90% das vagas que tinham sido encerradas no período imediatamente anterior (4T25). Ou seja, parte importante da contratação foi reposição.
Mas vale notar onde está o restante. Em 12 meses, o saldo positivo soma 104.839 empregos, uma expansão de 3,54% sobre o contingente do setor. O motor está rodando, e puxa junto com ele atividades como serviços de construção e a cadeia de fornecedores.
Regionalmente, São Paulo liderou em março (9.595 vagas), seguido por Minas Gerais (4.176), Rio de Janeiro (4.093), Bahia (2.831) e Santa Catarina (2.769). O Sudeste concentra o volume, mas a presença forte de Bahia, Pernambuco (2.489) e Alagoas (1.044) mostra um setor distribuído.
Por que esse motor pode arrefecer
De acordo com Estefan, por conta do custo, a velocidade de contratação tende a desacelerar, o que se conecta diretamente com o que tratei na ConstruFoco #68. Ele apontou dois fatores que devem pressionar o ritmo de novas contratações nos próximos meses:
- Reajustes excessivos nos preços cobrados por fornecedores, elevando o custo construtivo. Esse é o tema da projeção do INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) que pode chegar perto de 9% no acumulado.
- Redução da jornada de trabalho, que poderia elevar custos em mais de 20%, na visão de Estefan. A leitura da CBIC, apresentada na coletiva do 1º trimestre, apontou cerca de 10% para projetos do Minha Casa, Minha Vida, o que indica que Estefan trabalha com cenário mais amplo, considerando o conjunto do setor.
A consequência prática que ele projeta é de atrasos em obras em andamento e revisão da viabilidade de futuros lançamentos, com impacto direto sobre o nível de emprego.
Olhando como economia simples, contratar trabalhador formal só faz sentido quando há obra contratada com viabilidade fechada. Se a curva de custo aperta a viabilidade dos próximos lançamentos, o pipeline de obras nos próximos trimestres encolhe e o emprego acompanha.
O que sustenta contratação em cenário apertado
A capacidade de manter ritmo de contratação em um cenário de custo pressionado depende menos do contexto macroeconômico e mais de quanto controle de orçamento cada empresa tem sobre as obras em andamento e sobre o pipeline.
Quem sabe exatamente como o INCC e a mão de obra estão entrando em cada projeto consegue calibrar contratação com mais previsibilidade. Quem não sabe, contrata olhando para o retrovisor.
Três pontos práticos que valem para quem está revisando contratação ou orçamento agora:
- Acompanhamento granular do custo de mão de obra por categoria. Reajustes de convenção coletiva, dissídio, hora-extra e composição de equipe entram no orçamento de formas diferentes. Tratar tudo como "mão de obra" e olhar a média é o caminho para perder margem antes de perceber.
- Cronograma físico-financeiro acoplado ao real. Quando a curva de custo de execução começa a se desviar do previsto, a decisão de contratar ou desmobilizar precisa vir antes do impacto compor no resultado.
- Pipeline de obras com viabilidade testada nos custos de hoje. Lançar com viabilidade montada no custo de seis meses atrás é assumir um delta que vai aparecer na margem. Ou no nível de contratação que a empresa vai conseguir sustentar adiante.
Como o orçamento muda essa conta
A precisão de orçamento é o que separa quem decide contratação com previsibilidade de quem decide reagindo ao estouro. Com a curva de custo apertando e o nível de emprego do setor sensível a essa curva, isso vira ainda mais importante.
A metodologia da Celere combina orçamento detalhado com leitura granular de custo e acompanhamento contínuo de obras em andamento, exatamente para que a variação chegue ao seu radar antes de aparecer no resultado e antes de virar decisão de desmobilização.
Se você está revisando o pipeline para os próximos trimestres ou ajustando o orçamento de obras em andamento, entre em contato com a gente. Podemos conversar sobre o seu caso.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO
Imagem de destaque: Emma Houghton na Unsplash