Os resultados do 1T26 e o seu orçamento [ConstruFoco #68]

CBIC analisa INCC que pode chegar a 9% com petróleo, impacto da jornada 5×2 no custo do MCMV e Reforma Tributária

Por Raphael Chelin Publicado em 16/06/2026 Leitura: 5 min
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Os resultados do 1T26 e o seu orçamento [ConstruFoco #68]

Assisti com atenção à coletiva de imprensa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) sobre os resultados do primeiro trimestre e algumas coisas chamaram minha atenção. Então, decidi falar sobre isso nesta edição da ConstruFoco.

Para começar, o tom adotado foi o esperado para um mercado em ritmo positivo: vendas resistindo à Selic, MCMV ampliado animando a demanda, intenção de compra em patamar elevado pelo quarto trimestre consecutivo. Mas eu tratei dos números na ConstruFoco #67. Então, aqui, quero falar sobre outra coisa.

Na minha leitura, a parte mais interessante da coletiva foi o momento em que os três representantes do setor falaram sobre as preocupações. Celso Petrucci, Eduardo Aroeira e Ely Wertheim sinalizaram, de forma coordenada, três frentes que podem comprimir a margem e o ritmo de obra no segundo semestre.

Vale olhar uma por uma porque cada uma tem implicação direta no orçamento de quem está produzindo agora.

1. O INCC pode chegar a 9% com o petróleo

Petrucci apontou que, além de o INCC já acumular 6,28% nos últimos 12 meses, a projeção do setor é que o índice cresça mais 50% sobre o patamar atual, podendo chegar perto de 9% no acumulado.

Aroeira observou que a pressão já está sendo sentida em quatro grupos específicos: cimento, concreto, argamassa e PVC. Ou seja, a alta será concentrada nos insumos de base, que entram pesado nos primeiros meses de obra.

Inclusive, tratei desse tema na ConstruFoco #64, quando o INCC-M de abril já mostrou aceleração no grupo Materiais. Porém, a diferença é que agora a projeção ganhou número específico e horizonte explícito de quem está dentro da cadeia. Quem está orçando obra com cotação de fevereiro ou março precisa rever as premissas antes de fechar viabilidade.

2. O impacto da jornada 5x2

O segundo ponto é o que parece ter mais peso na conta operacional. A CBIC fez um estudo próprio sobre o impacto da redução da jornada de trabalho e concluiu que o custo de construção de projetos do MCMV subiria cerca de 10% com a mudança de 6×1 para 5x2 sem redução de salário.

Petrucci ressaltou que o setor tem hoje entre 800 mil e 1 milhão de unidades em produção, em sua maioria já vendidas a preço fechado e prazo de entrega contratado. Na visão dele, reduzir a jornada sem prazo de adaptação para ganhos de produtividade implicaria revisão de cronograma, prazo e preço, sobre uma carteira que já está com contratos assinados.

Outro número que merece atenção é o do volume de mão de obra: o setor precisaria de 288 mil trabalhadores adicionais para compensar a redução de carga sem atrasar entregas. Wertheim acrescentou que a mão de obra na construção não se forma do dia para a noite, uma vez que a industrialização tornou o trabalho mais qualificado, o que aumenta o tempo de treinamento de um trabalhador novo.

Para o MCMV, uma particularidade que potencializa o problema é que o preço de venda das unidades não é atualizado pela inflação durante a obra, diferentemente do que acontece em segmentos de média e alta renda. Assim, um aumento de 10% no custo de produção entra direto na margem.

3. A Reforma Tributária e as viabilidades de 2027 em compasso de espera

A terceira frente é menos imediata, mas talvez a mais estrutural. Wertheim destacou que sem a regulamentação da Reforma Tributária, não há como fazer viabilidade de empreendimento para lançamento em 2027.

Além de um problema de prazo, Wertheim lembrou que os sistemas e softwares de gestão ainda não estão adaptados ao novo modelo tributário e os próprios governos estaduais, que precisam fazer sua parte da implementação, estão atrasados. A posição da CBIC é defender que o prazo final da reforma seja mantido, mas que o prazo de implementação seja estendido por mais um ano.

Para incorporadoras planejando o próximo ciclo, isso significa que cada mês de atraso na regulamentação é um mês a menos para estruturar as viabilidades de 2027 com clareza tributária.

O que essas três frentes têm em comum

Olhando juntas, as três preocupações deixam claro que o orçamento que sustentou o lançamento ou a viabilidade do projeto precisa estar preparado para absorver variação maior do que a média histórica.

Isso não significa, porém, que estamos olhando para um cenário de catástrofe. Os próprios representantes da CBIC reconheceram que o mercado vai bem. O que temos é um cenário de pressões específicas, identificáveis, com horizontes definidos. E para quem está na ponta produtiva, pressão identificada permite preparação. Pressão difusa, não.

Há três movimentos práticos que essas três frentes empurram:

  • Revisar premissas de materiais de estrutura no orçamento corrente. Cimento, concreto, argamassa e PVC já têm aumento anunciado pela cadeia. Quem cotou no início do ano provavelmente precisa atualizar.
  • Mapear exposição da carteira ao risco de aumento de custo de mão de obra. Especialmente para empreendimentos do MCMV em fase inicial de obra, onde a maior parte do custo de execução ainda está pela frente.
  • Revisar as viabilidades de 2027 logo que a regulamentação avançar. Quem já tem orçamento estruturado e curva de custo organizada vai conseguir rodar viabilidades mais rápido quando a clareza tributária chegar.

Onde a Celere se posiciona nesse cenário

A precisão de orçamento já era o que separava margem real de margem prometida. Com três frentes específicas de pressão se desenhando para os próximos trimestres, isso vira condição de operação.

A metodologia da Celere combina orçamento detalhado com cotação ativa por insumo e acompanhamento contínuo de custo, exatamente para que a variação de INCC, mão de obra ou estrutura tributária chegue ao seu radar antes de aparecer no resultado.

Com nosso banco de dados de mais de R$ 30 bilhões em orçamento de construção, criamos uma máquina de orçamentação, tanto para projetos executivos, quanto para empreendimentos ainda em fase de validação de viabilidade. Neste último caso, conseguimos uma variação de apenas entre 2 e 3% quando comparável com o orçamento executivo.

Se você está revisando orçamentos de obras em andamento, montando viabilidade de novos empreendimentos ou estruturando o pipeline de 2027, entre em contato com a gente. Podemos conversar sobre o seu caso.

Boa semana!

Raphael Chelin
CEO


Imagem de destaque: Morgan Von Gunten na Unsplash