Panorama da construção em maio: MCMV sustenta quase metade das vendas e a atividade volta a crescer pelo terceiro mês, mas os custos da construção dão o maior salto mensal em quase quatro anos
A construção civil brasileira encerrou maio exibindo um cenário de contrastes.
De um lado, atividade, vendas e emprego seguem firmes, sustentados pelo mercado habitacional e pelo protagonismo do Minha Casa, Minha Vida. Do outro, custos de materiais, juros elevados e as tensões no Oriente Médio mantêm o setor sob pressão – com o INCC-M registrando o maior salto mensal em quase quatro anos.
A seguir, acompanhe os destaques do mês.
Atividade da construção melhora em abril, mas empresários seguem cautelosos
A indústria da construção brasileira voltou a apresentar sinais de recuperação em abril.
Segundo dados da Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o índice que mede a evolução do nível de atividade do setor subiu pelo terceiro mês consecutivo, passando de 46,3 pontos em março para 47 pontos em abril.

O movimento reforça uma trajetória de melhora observada desde o início do ano. Em janeiro, o indicador havia registrado 43,1 pontos. Apesar de ainda permanecer abaixo da linha dos 50 pontos (referência que separa crescimento de retração), o desempenho ficou acima da média histórica para o mês de abril, indicando um cenário menos negativo para o setor.
O índice de evolução do número de empregados apresentou comportamento semelhante, avançando para 47,1 pontos em abril. Segundo os empresários consultados pela pesquisa, tanto a atividade quanto o nível de emprego ficaram acima da média registrada historicamente para o mês.

De acordo com Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, parte dessa recuperação pode estar relacionada às medidas de estímulo anunciadas pelo governo federal no fim de 2025, como o aumento do valor máximo dos imóveis financiados pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e a ampliação de linhas de crédito voltadas à reforma de moradias populares.
Apesar da melhora nos indicadores operacionais, o ambiente do setor ainda é marcado por cautela. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da construção atingiu 46,7 pontos em maio e permaneceu abaixo da linha dos 50 pontos pelo 17º mês consecutivo, demonstrando continuidade do pessimismo entre os empresários.

A cautela também apareceu na intenção de investimentos. Em maio, o indicador caiu para 42,1 pontos, registrando o pior resultado para o mês desde 2021.

Indústria de materiais perde ritmo em abril após recuperação no mês anterior
O faturamento da indústria brasileira de materiais de construção voltou a apresentar retração em abril, interrompendo o movimento de recuperação observado no mês anterior.
Segundo o Índice ABRAMAT, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT), o faturamento deflacionado do setor caiu 2,0% na comparação com março, considerando os dados com ajuste sazonal. Frente a abril de 2025, a queda foi de 4,9%.
O resultado ocorre após um mês de recuperação para o setor. Em março, a indústria havia avançado 3,1% frente a fevereiro e registrado a primeira alta anual após nove meses consecutivos de retração.
Segundo a ABRAMAT, o cenário internacional teve influência direta sobre o desempenho da atividade industrial no período. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e aumentou a pressão sobre combustíveis, logística e derivados, fatores que impactam diretamente os custos operacionais da cadeia da construção.
O desempenho negativo atingiu tanto os materiais básicos quanto os de acabamento. Na comparação mensal, os materiais básicos registraram retração de 1,2%, enquanto os materiais de acabamento recuaram 2,8%. Já em relação a abril do ano passado, as quedas foram de 4,4% e 5,6%, respectivamente.
Para o presidente executivo da ABRAMAT, Paulo Engler, além do cenário internacional, o ambiente macroeconômico doméstico continua limitando uma recuperação mais consistente da construção civil. Segundo ele, a manutenção da taxa de juros em patamar elevado segue restringindo crédito, investimentos e o ritmo da atividade no setor.
Apesar da desaceleração observada em abril, a entidade mantém a projeção de crescimento de 1,9% para o fechamento de 2026.
Minha Casa, Minha Vida responde por quase metade das vendas de imóveis no Brasil

O programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MCMV) manteve sua posição como principal motor do mercado imobiliário brasileiro no primeiro trimestre de 2026.
De acordo com um levantamento feito pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o programa foi responsável por 49% das vendas de imóveis residenciais no período, com 54.510 unidades comercializadas entre janeiro e março.
Os dados, coletados em 221 cidades brasileiras, mostram que o programa segue sustentando a demanda por habitação popular no país. O estoque atual do MCMV está estimado em 7,6 meses, indicador considerado saudável pelo setor. Regionalmente, o Norte apresentou a maior participação do programa na oferta total de imóveis, com 52%, enquanto o Sul registrou a menor fatia, com 17%.
Para o vice-presidente Financeiro da CBIC, Eduardo Aroeira, os números reforçam o papel estratégico da política habitacional para o setor da construção civil e para o combate ao déficit habitacional brasileiro. Segundo ele, o programa vem consolidando sua posição como um dos principais impulsionadores do mercado imobiliário residencial.
Mesmo com a força das vendas, o número de lançamentos apresentou retração no período. Entre janeiro e março, foram lançadas 97.802 unidades residenciais, resultado 4,9% inferior ao registrado no mesmo trimestre de 2025. Na comparação com o quarto trimestre do ano passado, a queda chegou a 32,1% – movimento considerado esperado pelo setor devido à sazonalidade do mercado, que tradicionalmente concentra maior volume de lançamentos no fim do ano.
Apesar disso, o levantamento aponta que o número de unidades vendidas cresceu na maior parte do país. No acumulado de 12 meses, foram comercializadas 438.012 unidades residenciais, com o Sudeste respondendo por mais da metade desse total. O Valor Geral de Vendas (VGV) também avançou 0,5% em relação ao ano anterior, alcançando R$ 65,9 bilhões.
O estudo também identificou um cenário ainda favorável para a demanda imobiliária. Segundo pesquisa da Brain Inteligência Estratégica, 49% dos entrevistados afirmaram ter intenção de comprar um imóvel nos próximos dois anos. Deixar de pagar aluguel aparece como principal motivação para a compra, seguido pela saída da casa dos pais e pela mudança de localidade.
Apesar dos indicadores positivos, representantes do setor demonstraram preocupação com fatores que podem pressionar os custos da construção nos próximos meses, como os impactos da alta do petróleo provocada pelas tensões no Oriente Médio, além das discussões envolvendo a regulamentação da Reforma Tributária e possíveis mudanças na jornada de trabalho no Brasil.
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SINAPI sobe 0,72% em abril e custo do m² nacional fecha em R$ 1.946
O Índice Nacional da Construção Civil (SINAPI) registrou variação de 0,72% em abril, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou 0,35 ponto percentual acima da taxa observada em março (0,37%) e elevou o acumulado dos últimos 12 meses para 7,01%, acima dos 6,73% registrados no período imediatamente anterior.
Com a alta, o custo nacional da construção por metro quadrado passou de R$ 1.932,27 em março para R$ 1.946,09 em abril. Desse total, R$ 1.098,80 correspondem aos materiais e R$ 847,29 à mão de obra. A parcela dos materiais apresentou variação de 0,83% no mês, enquanto a mão de obra registrou alta de 0,57%.
Regionalmente, o Nordeste apresentou a maior variação mensal em abril, com avanço de 0,98%, impulsionado principalmente pelos reajustes observados no Maranhão. Entre os estados, o Acre registrou a maior alta do país no período, com variação de 3,89%, seguido pelo Maranhão, com 2,99%.
INCC-M tem maior alta mensal desde 2022 com pressão concentrada nos materiais
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), registrou alta de 1,04% em abril – a maior variação mensal do indicador desde julho de 2022. Com o resultado, o índice acumula avanço de 6,28% nos últimos 12 meses, reforçando o cenário de pressão sobre os custos da construção civil.
A força da alta veio dos materiais. O grupo de Materiais, Equipamentos e Serviços saltou de 0,27% em março para 1,35% em abril, puxado pela categoria de Materiais e Equipamentos, que passou de 0,28% para 1,40%. Três dos quatro subgrupos dessa categoria aceleraram, com destaque para "materiais para estrutura", que pulou de 0,17% para 1,82%.

Entre os itens com maior peso no resultado estão a massa de concreto (4,39%), os tubos e conexões de PVC (5,11%), o cimento Portland comum (3,02%), os blocos de concreto (1,48%) e os vergalhões e arames de aço ao carbono (0,91%). No grupo de Serviços, o item "aluguel de máquinas e equipamentos" saltou de 0,05% para 1,87% e, sozinho, explica boa parte do avanço do segmento, que foi de 0,24% para 0,97% no mês.
Já a Mão de Obra teve variação mais discreta em abril (0,61%, ante 0,47% em março), mas chama atenção no acumulado: o componente fechou 12 meses em 8,71%, bem acima da média do índice e o maior peso da pressão de custos quando a janela é ampliada.
A alta também foi geograficamente disseminada. Todas as sete capitais que compõem o INCC-M registraram aceleração em abril. Salvador liderou, com variação de 2,03% no mês, seguida por Porto Alegre (1,23%), Rio de Janeiro (1,13%), São Paulo (0,91%), Brasília (0,86%), Belo Horizonte (0,82%) e Recife (0,77%).

O pano de fundo das altas é, em larga medida, externo. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e pressionou derivados petroquímicos, combustíveis e fretes – fatores que aparecem na cadeia de praticamente todos os materiais com maior contribuição no mês. Em Santa Catarina, um dos mercados imobiliários mais aquecidos do país, sindicatos da construção já relatam reajustes entre 20% e 30% em alguns materiais.
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