Dados de um estudo de caso real com duas obras do mesmo cliente mostram que a comparação entre drywall e alvenaria de vedação é mais complexa do que parece
A pergunta é recorrente entre construtoras e incorporadoras: "vale a pena trocar a alvenaria de vedação convencional por drywall?".
E a resposta que o mercado mais escuta é sempre a mesma – "o drywall é mais caro por metro quadrado" – o que, na maioria das vezes, encerra o assunto antes que ele seja realmente analisado.
O problema é que essa comparação está pelo menos incompleta. Quando se olha somente para o custo da parede em si, o drywall sai perdendo. Mas quando se amplia o escopo da análise – incluindo o revestimento que deixa de ser feito e, principalmente, o impacto sobre a estrutura e a fundação –, o cenário muda. Bastante!
A Celere conduziu um estudo comparativo com duas obras reais para entender exatamente esse impacto. Com os dados em mãos, Raphael Chelin, CEO, Leandro Nagano, gerente de operação e orçamentos, além de partner da Celere, conversaram sobre o que realmente importa nessa comparação.
O estudo de caso
Depois de construir um empreendimento inteiro com alvenaria convencional, um cliente da Celere decidiu que, no segundo, trocaria as paredes internas por drywall. A convicção de que haveria economia existia – o que ele queria saber era quanto.
Foto de Olek Buzunov na Unsplash
Comparativos confiáveis entre sistemas construtivos são raros porque, na grande maioria das vezes, as variáveis não são isoladas e controladas. Nesse caso, porém, elas estavam. Os dois empreendimentos ficam em Fortaleza, têm o mesmo projetista e perfil similar de produto. As condições para um comparativo confiável estavam todas ali.
A obra A, com 22.000 m², foi executada com drywall nas paredes internas dos apartamentos – mantendo alvenaria nas divisas entre unidades e nas fachadas. A obra B, com 18.000 m², teve alvenaria convencional em bloco cerâmico ou bloco de concreto em todas as paredes internas.
Uma observação metodológica importante: todos os custos aqui são apresentados por metro quadrado de área construída do empreendimento, não por metro quadrado de parede. "Não faz muito sentido olhar somente os valores totais de cada etapa, porque as obras costumam ter metragens diferentes", explica Leandro. Comparar pelo m² de área construída é o que permite uma leitura precisa do impacto no custo global.
A primeira surpresa: vedação e revestimento
O ponto de partida da análise é onde a maioria das construtoras costuma parar. E já aqui os dados surpreendem.
O custo de vedação da obra com alvenaria foi de R$ 135/m² de área construída. Com drywall, R$ 170/m². A alvenaria sai mais barata nessa etapa, o que confirma o que o mercado costuma ouvir.
No revestimento, a lógica é direta: a alvenaria exige chapisco e reboco antes de qualquer acabamento – etapas que o drywall elimina. O custo do revestimento com alvenaria ficou em R$ 109/m²; com drywall, R$ 89/m².
A explicação está em como os custos são distribuídos.
- O metro quadrado de parede de drywall instalada – chapa simples, perfil metálico, material e mão de obra completos – fica em torno de R$ 150 a R$ 160.
- O metro quadrado de alvenaria convencional, considerando material e mão de obra, fica por volta de R$ 90.
Parede por parede, a alvenaria é mais barata – e essa diferença se mantém quando se olha pelo m² de área construída. O que reduz o gap é o revestimento: ao eliminar chapisco e reboco, o drywall economiza cerca de R$ 20/m² nessa etapa.
Somando vedação e revestimento, a diferença cai para cerca de R$ 15/m² – daí o empate técnico que o mercado raramente enxerga. "Quando a gente olha apenas para estas duas etapas, as coisas meio que se equilibram", resume Leandro Nagano. Com chapa simples e nas condições deste estudo, a distância é relativamente pequena.
Ressalva importante: essa equação vale para chapa simples. Quando o projeto especifica chapa dupla, tripla ou com isolamento acústico – o que é comum em projetos de médio e alto padrão –, o custo do drywall sobe consideravelmente, e a diferença com a alvenaria aumenta.
O ganho que a maioria não vê
Foto de Bermix Studio na Unsplash
Ou seja, se a análise parasse em vedação e revestimento, a conclusão seria uma leve vantagem para a alvenaria convencional. Mas os ganhos não param aí – e é nesse ponto que o drywall mostra seu argumento mais forte.
Drywall é significativamente mais leve do que bloco de concreto ou cerâmica. Quando essa diferença de peso é considerada desde o início do projeto – antes da definição da estrutura e da fundação –, ela se traduz em uma estrutura menos robusta, com menos concreto e menos aço.
No estudo comparativo da Celere, dois indicadores mostram esse impacto com clareza.
- O primeiro é a lâmina média de concreto – o volume total de concreto da estrutura dividido pela área construída, que representa quanto concreto existe por metro quadrado de área. Na obra com alvenaria, essa lâmina foi de 35 cm. Na obra com drywall, caiu para 32 cm, o que significa menos concreto em pilares, vigas e lajes ao longo de todos os pavimentos.
- O segundo indicador é a taxa de aço: na obra com alvenaria, foram necessários 98 kg de aço por metro cúbico de concreto; com drywall, esse número caiu para 80 kg/m³. Ou seja, além de menos concreto no total, cada metro cúbico de concreto precisou de menos aço.
"Quanto mais peso, mais força você precisa para sustentar. Na academia, se você aumenta o peso, precisa ter mais músculo. Aqui é a mesma lógica: mais força é mais concreto e mais aço", explica Raphael Chelin. Com paredes mais leves, a estrutura pode ser mais esbelta – e o projeto de estrutura, mais barato.
O impacto se estende à fundação. Com um edifício mais leve, as cargas que chegam ao solo são menores e a fundação pode ser dimensionada para suportar menos. Nesse estudo específico, a fundação era rasa – sapatas –, e a redução de carga também permitiu um projeto de fundação menos volumoso.
Quando se agrega o ganho em estrutura e fundação ao comparativo, o drywall ficou R$ 120/m² mais barato do que a alvenaria, mesmo sem contabilizar os ganhos indiretos, que trataremos no próximo artigo desta série.
Leia também:
Guia prático do orçamento de fundações
O momento da decisão
Esse ganho em estrutura e fundação existe apenas sob uma condição: a decisão de usar drywall precisa ser tomada antes dos projetos estruturais.
O fluxo é o seguinte: o projetista de estrutura dimensiona pilares, vigas e lajes com base no peso total que o edifício vai exercer sobre eles. Se o projeto já prevê drywall, ele dimensiona para um prédio mais leve – e a estrutura sai menor e mais barata. O projetista de fundação, por sua vez, recebe as cargas do estrutural e dimensiona sapatas, estacas, blocos ou radier para aquelas cargas específicas.
Se a troca por drywall for feita depois que esses projetos estiverem prontos – ou pior, depois que a fundação já tiver sido executada –, a estrutura já foi dimensionada para o peso da alvenaria. O edifício terá uma estrutura mais robusta do que precisa, e o ganho financeiro mais relevante da troca simplesmente não existe.
É uma armadilha comum no mercado brasileiro, onde o imediatismo leva muitas construtoras a fazerem a troca durante a execução, sem revisar os projetos. O resultado é que elas assumem o custo mais alto do drywall sem capturar o ganho na estrutura.
O que esse estudo mostra – e o que ele não mostra
Os números apresentados aqui refletem um cenário específico: chapa simples, mesmo tipo de estrutura e fundação nas duas obras, mesmo projetista, mesma cidade. Em projetos com especificações diferentes – chapas duplas ou triplas, solos mais desafiadores, metodologias estruturais distintas –, os resultados variam.
O que o estudo demonstra com clareza é que a pergunta "drywall é mais barato?" não tem resposta binária. Depende de quando a decisão é tomada, de qual especificação de chapa é usada e de quais etapas do empreendimento são incluídas na análise. Quem responde essa pergunta olhando só para o custo da parede está, na melhor das hipóteses, vendo metade do quadro.
Essa é exatamente a diferença entre um orçamento que registra custos e um orçamento que orienta decisões. Saber que o drywall impacta estrutura e fundação – e que esse impacto só existe se a decisão for tomada no momento certo – é o tipo de inteligência que muda o resultado financeiro de um empreendimento antes mesmo de a obra começar.
A Celere faz esse tipo de análise com base em dados de centenas de obras reais. Se você está avaliando uma troca de sistema construtivo ou quer entender o impacto real das suas escolhas de projeto no custo final da obra, fale com a gente.
Imagem de destaque: Brian Wangenheim na Unsplash