Com mão de obra em escassez crescente e obras financiadas a juros altos, prazo e dependência de gente viraram variáveis financeiras – e mudam o resultado da comparação entre drywall e alvenaria
Recentemente, a Celere conduziu um estudo comparativo com duas obras do mesmo cliente em que os custos diretos – vedação, revestimento, estrutura e fundação – colocaram o drywall R$ 120/m² mais barato.
Neste artigo, mostramos por que a comparação entre drywall e alvenaria de vedação é mais complexa do que parece e alertamos: esse resultado ainda não
conta a história completa. "Há ganhos que não estão explícitos nesse estudo e que a gente orienta fortemente a colocar na conta", aponta Raphael Chelin, CEO da Celere.
Esses ganhos têm três origens: mão de obra, prazo de obra e custo do dinheiro.
Mão de obra e o contexto que muda o peso de toda decisão construtiva
Para entender por que o argumento da mão de obra tem um peso crescente nessa equação, é preciso olhar para o que está acontecendo no mercado.
O custo da mão de obra na construção civil fechou 2025 com alta de 8,98%, segundo dados do INCC-DI – quase 150% acima da variação de materiais e equipamentos no mesmo período (3,61%).
Como Raphael já apontou na ConstruFoco #50, esse descasamento não é novo. A mão de obra vem subindo consistentemente acima do INCC desde meados de 2022, e a tendência para 2026 é de repetição – mais empresas contratando em um mercado já escasso de trabalhadores qualificados.
E o problema não para no custo, passa também pela disponibilidade.
Como André Quinderé, CEO da Agilean, destacou no primeiro Incorpod presencial, a pirâmide etária brasileira indica que a partir de 2037 a força de trabalho do país começará a encolher. A construção civil já sente esse movimento, com jovens buscando trabalhos que consideram menos insalubres e mais tecnológicos. "O mercado da construção está perdendo profissional para motoboy de iFood, para motorista de Uber", observa Raphael. "Os jovens não querem mais ser pedreiros", complementa.
Nesse contexto, a escolha entre alvenaria convencional e drywall deixa de ser uma decisão técnica isolada e passa a ser, também, uma decisão de gestão de risco.
Por que "menos gente na obra" importa
Foto de SAMS Solutions na Unsplash
A alvenaria convencional é, por definição, um processo artesanal e intensivo em mão de obra: tijolo por tijolo, camada por camada, seguido de chapisco e reboco. Cada uma dessas etapas exige equipes numerosas, presença constante no canteiro e coordenação de múltiplas frentes simultâneas.
O drywall opera em outra lógica. A placa já chega industrializada, a instalação é contratada por empreitada com empresa especializada, e as etapas de revestimento primário simplesmente desaparecem.
"Você está tirando uma quantidade grande de pessoas da obra quando compara um com o outro", resume Leandro Nagano, gerente de operação e orçamentos, além de partner da Celere. "No momento em que os custos estiverem quase próximos, já é mais seguro para o empreendedor depender de menos gente", avalia.
A menor dependência de mão de obra tem duas consequências diretas:
- A primeira é operacional: menos gente para contratar, coordenar e reter em um mercado onde isso está cada vez mais difícil.
- A segunda é financeira: a mão de obra que deixa de ser necessária não pressiona o orçamento com os reajustes acima da inflação que o setor vem enfrentando.
A redução de equipes tem um segundo efeito, menos óbvio mas igualmente real: a obra fica mais rápida, com menos etapas sequenciais, menos gargalos de coordenação entre subempreiteiros e menos tempo esperando uma fase terminar para a próxima começar.
"A obra com drywall tende a ser mais rápida. Você sobe a placa que já vai na parede inteira, não tem que ficar colocando tijolo a tijolo, depois chapiscar, depois rebocar, com mais gente em obra", explica Leandro.
A estimativa que ele e Raphael trabalham é de uma redução de dois a quatro meses no prazo de obra – número que varia dependendo do porte e da complexidade do empreendimento, mas que serve como referência de ordem de grandeza.
De dois a quatro meses de prazo a menos significa menos tempo de canteiro em operação. E canteiro de obra custa dinheiro todos os dias. "São meses de passivo com uma equipe inteira funcionando que também custa dinheiro", reforça Leandro.
A isso se somam dois efeitos secundários que amplificam o ganho:
- O primeiro é o entulho: a alvenaria convencional gera volumes significativos de resíduo em obra – blocos quebrados, argamassa, reboco. Recolher, transportar e descartar esse material tem custo direto, e o drywall reduz esse volume de forma considerável.
- O segundo efeito é a antecipação de receita: em empreendimentos com unidades à venda, meses a menos de obra significam recebíveis que chegam mais cedo – capital que volta para o caixa antes do previsto.
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O argumento que fecha a conta
Por fim, é preciso lembrar que quase todas as obras no Brasil são financiadas. Seja por banco, seja por fundo de investimento, o dinheiro que financia a construção tem um custo: os juros do período em que está sendo utilizado. Com a Selic no patamar atual, esse custo não é trivial.
"Você paga juros sobre o dinheiro emprestado para construir a obra. Se você tem menos prazo de obra, você vai pagar menos juros. E às vezes é significativo – um, dois, três meses desse dinheiro emprestado", pontua Raphael.
A lógica é direta: cada mês a menos de obra é um mês a menos de juros sobre o saldo devedor do financiamento. Dependendo do volume financiado e da taxa contratada, essa economia pode superar em muito qualquer diferença de custo direto entre os dois sistemas – e, como Raphael observa, pode transformar uma obra que no papel ficou "igual" em uma obra que na prática gerou R$ 500.000 ou R$ 1 milhão a mais de resultado.
A conta que precisa ser feita antes de começar
Foto de Sara Mobasheri na Unsplash
Decidir entre sistemas construtivos olhando só para os custos diretos é como avaliar a rentabilidade de um empreendimento olhando só para o preço de venda. O número existe, mas não conta toda a história. Mão de obra, prazo e juros são parte do custo real de uma obra. Ignorá-los na comparação entre sistemas construtivos não simplifica a análise; distorce o resultado.
A diferença entre um orçamento que registra custos e um orçamento que orienta decisões está na capacidade de antecipar o impacto de escolhas de projeto no resultado financeiro total do empreendimento – incluindo os custos que não aparecem em nenhuma linha de planilha convencional. E esse tipo de análise só funciona se feita antes dos projetos de estrutura. Depois, parte dos ganhos já não existe mais.
Se você quer entender o impacto real das suas escolhas de projeto no custo final da obra, fale com a Celere.
Agora que você já sabe que drywall e alvenaria quase empatam nos custos diretos – e que os ganhos reais estão na estrutura, na mão de obra e no prazo –, a pergunta que fica é: como colocar isso em prática?
No terceiro e último artigo desta série, sairemos da análise de custos e entraremos no guia prático: em quais paredes o drywall faz sentido, quando a decisão precisa ser tomada, o que muda na especificação conforme o padrão do empreendimento e o que o manual do proprietário precisa prever para proteger a construtora e o próprio edifício.
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