Já estamos quase chegando em abril, mas entidades do setor de construção civil seguem divulgando dados consolidados de 2025. Não prestar atenção a isso pode prejudicar o seu planejamento – e a execução dele – este ano.
Neste sentido, hoje quero que a gente analise juntos esta manchete: "Preço dos imóveis residenciais fecha 2025 com alta de 18,64% – recorde desde o início da série histórica, em 2016, aponta Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip)".
Se você acompanha a ConstruFoco e lê os artigos que publicamos no Blog da Celere, isso não deve te surpreender. A gente vem falando sobre alguns dos movimentos que influenciaram esse resultado há meses – como demanda resiliente, oferta restrita, transformação no perfil do comprador e funding escasso pressionando o setor.
O que importa agora, portanto, é como você usa esse panorama consolidado de 2025 para tomar decisões melhores em 2026. Porque se teve uma coisa que aprendemos na Celere orçando R$ 29 bilhões em obras ao longo de quase 11 anos é que dados do passado só servem se te ajudarem a se preparar para o futuro.
O que explica a valorização – e por que ela não é uniforme
Antes de mais nada, vamos colocar esse número em perspectiva: enquanto os preços dos imóveis subiram 18,64%, o INCC (custos de construção) subiu 5,94% e o IPCA (inflação) ficou em 4,26%. Ou seja, os preços subiram 3,1 vezes mais que os custos de construção.
Segundo a Abecip, esse descolamento reflete uma demanda resiliente, restrições estruturais de oferta e a consolidação do imóvel como ativo de preservação de valor. Quando você olha os dados regionais, fica claro que não se trata de um movimento homogêneo:
- Brasília: 27,11% (recorde histórico)
- Curitiba: 24,68%
- Recife: 24,71%
- Salvador: 23,37%
- Belo Horizonte: 20,06%
- São Paulo: 15,76%
- Rio de Janeiro: 14,17%
Há ainda um dado macroeconômico que ajuda a explicar por que a demanda se sustentou mesmo com a Selic em alta: o rendimento médio mensal cresceu cerca de 5% em 2025, ampliando a capacidade de compra das famílias. E avanços em digitalização – como assinatura eletrônica e registro digital – contribuíram para a redução entraves na jornada do crédito imobiliário, o que também facilitou a sustentação da demanda em patamares elevados.
A visão da Abecip sobre 2026
Na coletiva de apresentação desses resultados, a Abecip falou sobre as perspectivas para 2026 em um tom moderadamente positivo. De acordo com a entidade, a projeção é de crescimento de 16% no crédito imobiliário, com:
- SBPE: +15%
- FGTS: +5%
- Recursos livres: +66% (o maior crescimento)
Segundo Priscilla Ciolli, presidente da Abecip, "o mercado superou as expectativas e mostrou capacidade de adaptação, inclusive com maior uso de recursos livres e soluções de tesouraria para financiamento". Mas ela acrescentou que "a velocidade dessa expansão depende diretamente da redução dos juros e da consolidação do novo modelo de funding".
Traduzindo: em 2026, devemos ver comodação de preços em patamares elevados, preparação para crescimento mais consistente a partir de 2027 e muita dependência do comportamento da Selic no segundo semestre.
Como usar esse panorama de 2025 para ter um 2026 melhor
Existe uma diferença enorme entre ler esses números e pensar "interessante" e ler esses números e agir. Com base no que acabamos de descobrir, queria propor três reflexões práticas:
1) Seu portfólio reflete o mercado de hoje ou o de 5 anos atrás?
Se 67% dos compradores são Millennials e Gen Z que preferem produtos compactos, você está lançando o que eles querem ou apostando em apartamentos de 3 quartos que vão virar estoque parado?
2) Você está estruturando funding ou esperando o crédito secar?
Recursos livres estão crescendo 66% enquanto SBPE cresce apenas 15%. Se você ainda depende 100% de funding tradicional, está estruturando alternativas agora ou vai esperar o crédito secar para começar a se mexer?
3) Preços subiram 18,64%, mas sua margem está garantida?
Aqui está o ponto mais crítico: preços subiram 18,64%, mas isso não garante margem nenhuma se você orçou com INCC de 5,94% e sua mão de obra subiu 8%, seu cobre disparou 9% e seus condutores elétricos acumularam 5,6% para cada 10% de alta no cobre internacional.
Quem lê a ConstruFoco todas as semanas já está cansado de saber que o INCC médio esconde variações brutais por insumo. E se você não acompanha isso mês a mês, a margem que parecia saudável no papel vira prejuízo na prática.
Essas são apenas algumas das perguntas que você precisa responder para sair na frente este ano. Adoraria saber o que mais você está pensando a partir dessas análises. Entre em contato com a gente para compartilhar sua visão, e vamos seguir a conversa.
Por fim, o que quero lembrar é que, de fato, 2026 será um ano de transição e acomodação. Mas transição também é oportunidade! Para quem se preparar com dados reais, produtos certos e custos sob controle, 2026 pode ser muito melhor que 2025.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO
PS: Se quiser se aprofundar nos temas que conectamos nesta edição, recomendo a leitura destes conteúdos:
- ConstruFoco #51: Recorde de lançamentos vs. vendas lentas
- ConstruFoco #53: Análise do INCC-M e pressões de custos
- Incorpod #11 – Panorama completo do mercado imobiliário
- Incorpod #11 – MCMV como motor do crescimento
- Incorpod #11 – Funding e novos modelos de crédito
- Incorpod #11 – Mudança geracional e produtos compactos
Imagem de destaque: Ian Talmacs na Unsplash