Construção inicia 2026 com custos pressionados e mercado sustentado pelo MCMV

Mão de obra puxa a alta dos custos, enquanto ampliação de teto de imóveis nas faixas 1 e 2 do Minha Casa, Minha Vida reforça estímulos ao mercado

Por Celere Publicado em 30/01/2026 Leitura: 8 min
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Construção inicia 2026 com custos pressionados e mercado sustentado pelo MCMV

O encerramento de 2025 trouxe um conjunto relevante de indicadores para a construção civil, combinando pressão nos custos, desempenho positivo da indústria de materiais, resiliência operacional das incorporadoras e reforço das políticas habitacionais como principal motor de demanda para o início de 2026.

No primeiro Giro de Notícias do ano, reunimos os principais dados que ajudam a entender o momento do setor e quais são os vetores que devem influenciar o desempenho nos próximos meses. As manchetes são estas:

  • Puxado pela mão de obra, Índice Nacional da Construção Civil encerra 2025 em alta.
  • Incorporadoras fecham 2025 com melhora operacional.
  • MCMV amplia teto de imóveis nas faixas 1 e 2 e reforça estímulos ao mercado.
  • Vendas de cimento finalizam 2025 em alta e consolidam retomada do setor.
  • Custo da construção avança em São Paulo e fecha 2025 com alta de 4,14%.

Puxado por mão de obra, Índice Nacional da Construção Civil encerra 2025 em alta

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O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) registrou alta de 0,51% em dezembro de 2025 – acelerando em relação a novembro (0,25%) – e encerrou o ano com acumulado de 5,63%, acima do resultado de 2024 (3,98%).

Segundo o IBGE, o custo médio nacional da construção atingiu R$ 1.891,63 por metro quadrado, sendo R$ 1.078,39 em materiais e R$ 813,24 em mão de obra.

Enquanto os materiais tiveram variação moderada em dezembro (0,27%), a mão de obra avançou 0,83%, impulsionada por acordos coletivos firmados no período. No acumulado do ano, os custos com materiais subiram 4,20%, enquanto a mão de obra apresentou alta mais intensa, de 7,63%, reforçando a pressão sobre os orçamentos das obras.

Esse comportamento evidencia uma mudança no vetor de pressão dos custos, com a mão de obra ganhando protagonismo frente aos insumos. Para construtoras e incorporadoras, o movimento exige maior atenção à produtividade, planejamento de equipes e renegociação de contratos, especialmente em um cenário de retomada gradual da atividade e aumento do volume de obras em algumas regiões.

Regionalmente, o Centro-Oeste liderou o avanço em 2025, com alta acumulada de 6,27%, enquanto o Norte teve o menor crescimento (4,62%). Em dezembro, o Sudeste apresentou a maior variação mensal (0,97%), influenciada por reajustes salariais em Minas Gerais. Entre os estados, Mato Grosso registrou a maior alta anual (8,05%), enquanto o Amazonas teve o menor acumulado no período (3,74%).

Incorporadoras fecham 2025 com melhora operacional

Mesmo em um cenário macroeconômico desafiador, marcado por juros elevados e crédito mais restrito, as principais incorporadoras brasileiras encerraram 2025 com crescimento em vendas e lançamentos.

De acordo com informações do jornal Valor Econômico, as prévias operacionais divulgadas ao mercado indicam resiliência da demanda imobiliária, embora a velocidade de vendas mais lenta já esteja no radar dos analistas – especialmente no segmento de média e alta renda.

Entre as 14 empresas analisadas, apenas quatro registraram queda nas vendas em relação a 2024 (Lavvi, Mitre, Trisul e Cyrel). Dentre essas, com exceção da Lavvi, as retrações foram moderadas. Em lançamentos, Lavvi e Mitre também apresentaram recuo, ao lado da Melnick e da Tenda. No caso da Tenda, a queda ocorreu no resultado consolidado, que inclui a Alea (casas industrializadas). Considerando apenas a marca principal, houve crescimento nos novos projetos.

Os analistas avaliam que, apesar do ambiente de juros altos e menor disponibilidade de recursos para financiamento, o resultado geral foi positivo. Ainda assim, a menor velocidade de comercialização no médio e alto padrão levanta alertas. Mais sensível às condições macroeconômicas e sem o suporte do FGTS, o segmento pode enfrentar aumento de estoques, o que tende a pressionar margens e levar a ajustes em lançamentos ou estratégias comerciais ao longo de 2026.

No horizonte de 2026, a expectativa de início do ciclo de queda dos juros pode funcionar como estímulo à demanda por imóveis de média e alta renda.

Já no segmento de habitação popular, o cenário segue mais favorável. As incorporadoras do Minha Casa, Minha Vida registraram crescimento em vendas e lançamentos em 2025, impulsionadas pela ampliação das faixas do programa, novos subsídios e medidas como a isenção do imposto de renda para salários de até R$ 5 mil, que deve ampliar o público apto a acessar financiamento habitacional.

MCMV amplia teto de imóveis nas faixas 1 e 2 e reforça estímulos ao mercado

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O Conselho Curador do FGTS aprovou a atualização dos tetos de preços dos imóveis das faixas 1 e 2 do Minha Casa, Minha Vida, medida que entrou em vigor em 1º de janeiro.

Os reajustes variam entre 4% e 6% e elevam o valor máximo financiável para um intervalo entre R$ 255 mil e R$ 270 mil, dependendo do porte do município, ampliando o alcance do programa para famílias com renda mensal de até R$ 4.700.

A mudança beneficia especialmente cidades médias e grandes centros urbanos, incluindo capitais regionais e metrópoles. Segundo o Ministério das Cidades, o ajuste amplia a cobertura do programa para mais 75 municípios e cerca de 51,8 milhões de habitantes, com destaque para as regiões Norte e Nordeste, que também passam a contar com curvas de subsídio mais elevadas – chegando a até R$ 65 mil em alguns casos.

O pacote de medidas faz parte da estratégia de fortalecimento do programa para 2026, ano em que o FGTS terá orçamento recorde de R$ 160,5 bilhões, sendo R$ 144,5 bilhões destinados à habitação. A meta do governo é acelerar a contratação de novas unidades, após o programa alcançar 2 milhões de moradias contratadas em 2025, com expectativa de chegar a 3 milhões em 2026.

Para o mercado, o MCMV deve seguir como principal motor do setor imobiliário no ano.

Segundo projeções da FGV/Ibre, as vendas devem permanecer elevadas, impulsionadas pelo programa habitacional, enquanto o crédito para média e alta renda tende a apresentar maior restrição. No cenário-base, a instituição projeta crescimento de 2,7% do PIB da construção em 2026, condicionado ao ritmo de queda dos juros e à execução das políticas de crédito.

A ampliação da chamada Faixa 4, implementada em 2025, também trouxe impactos relevantes para o perfil da demanda. Incorporadoras relatam consumidores mais exigentes, em busca de empreendimentos com melhor padrão construtivo, áreas de lazer e soluções mais completas. Para o setor, o movimento amplia o mercado endereçável, acelera a velocidade de vendas e reforça o papel do MCMV como instrumento de dinamização da construção civil e do crédito habitacional.

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Vendas de cimento finalizam 2025 em alta e consolidam retomada do setor

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As vendas de cimento somaram 67 milhões de toneladas em 2025, registrando crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC).

Em dezembro, o volume comercializado chegou a 4,9 milhões de toneladas, alta de 4,7% na comparação anual. O resultado consolida a trajetória de recuperação iniciada em 2024, embora o setor ainda esteja abaixo do recorde histórico de 2014, quando foram vendidas 73 milhões de toneladas.

O desempenho foi positivo em todas as regiões do país, com destaque para o Nordeste, que liderou o crescimento anual (7,2%), seguido por Norte (4,0%), Sul (3,1%), Sudeste (2,7%) e Centro-Oeste (1,9%).

O avanço ocorreu em um cenário econômico de contrastes: enquanto o mercado de trabalho apresentou forte aquecimento, com recorde de ocupação e aumento da renda média, o setor conviveu com Selic elevada (15%), retração do crédito imobiliário via poupança, alto endividamento das famílias e inadimplência recorde.

Na construção habitacional, o Minha Casa, Minha Vida seguiu como principal vetor de demanda. Até setembro, os lançamentos do programa cresceram 7,9% e as vendas avançaram 15,5%, com destaque para a região Norte, onde o MCMV respondeu por cerca de 60% dos lançamentos imobiliários. Já na infraestrutura, o saneamento manteve ritmo de investimentos, enquanto o uso do pavimento de concreto avançou em rodovias e vias urbanas, impulsionado por critérios de durabilidade e descarbonização.

O setor também avançou na agenda ambiental. O coprocessamento atingiu 30% da matriz energética da indústria, evitando a emissão de cerca de 2,8 milhões de toneladas de CO?.

Para 2026, a entidade projeta crescimento moderado no consumo de cimento, sustentado principalmente por três frentes: habitação popular, investimentos em infraestrutura de transportes e saneamento básico.

Custo da construção avança em São Paulo e fecha 2025 com alta de 4,14%

O Custo Unitário Básico (CUB) da construção paulista registrou alta de 0,31% em dezembro de 2025 e encerrou o ano com acumulado de 4,14%, segundo dados divulgados pelo SindusCon-SP. Com isso, o projeto-padrão R8-N terminou dezembro com custo médio de R$ 2.123,87 por metro quadrado.

No detalhamento dos componentes, os materiais de construção avançaram 0,25% em dezembro e acumularam alta de 2,56% no ano, enquanto a mão de obra subiu 0,33% no mês e fechou 2025 com elevação mais intensa, de 5,17%.

Já os custos administrativos, representados principalmente pelos salários de engenheiros, registraram aumento de 6,40% no acumulado anual, reforçando a pressão sobre as despesas indiretas dos empreendimentos.

Nas obras enquadradas no regime de desoneração da folha, o CUB apresentou crescimento anual de 5,93%, acima do índice geral, com o custo médio do padrão R8-N chegando a R$ 2.015,90 em dezembro. O dado evidencia que, mesmo com incentivos tributários, o ambiente de custos segue pressionado.

Entre os insumos, dezembro foi marcado por reajustes pontuais acima da inflação geral do período, enquanto no acumulado de 12 meses destacaram-se altas expressivas em itens como esquadrias de alumínio, tubos de PVC, blocos de concreto e placas de gesso, materiais amplamente utilizados em obras residenciais e comerciais.

Para o setor, o comportamento reforça a necessidade de gestão mais rigorosa de suprimentos, compras antecipadas e revisões constantes de orçamento, especialmente em projetos com execução ao longo de 2026.

Imagem de destaque: Troy Mortier na Unsplash