- Juros seguem como principal entrave à construção, apesar de leve melhora nas expectativas
- Construção civil mantém liderança na geração de empregos
- Custo do trabalho pressiona e impulsiona inflação da construção
- Novo modelo de financiamento deve impulsionar crédito imobiliário a partir de 2026
- FGV estima impacto de R$ 52 bilhões no PIB com o programa Reforma Casa Brasil
Juros seguem como principal entrave à construção, apesar de leve melhora nas expectativas
As taxas de juros elevadas completaram um ano como o principal obstáculo enfrentado pela Indústria da Construção, segundo a Sondagem do 3º trimestre de 2025 da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). O problema foi citado por 35% dos empresários do setor, seguido pela alta carga tributária (32,2%) e pela falta ou alto custo de mão de obra qualificada (25,8%). Apesar das dificuldades, os indicadores da sondagem mostram sinais de recuperação no trimestre. O nível de atividade subiu para 48,4 pontos em setembro, superando a média histórica do mês, e a Utilização da Capacidade Operacional (UCO) voltou a 68%. Além disso, o índice de confiança do empresário da construção também cresceu pelo segundo mês consecutivo, atingindo 48,4 pontos, ainda abaixo da linha de otimismo, mas em trajetória de melhora. A sondagem também indica avanço nas expectativas: os empresários estão mais otimistas quanto ao nível de atividade, compras de insumos e novos empreendimentos nos próximos seis meses. O índice de intenção de investimentos subiu 2,5 pontos, para 43,6, revertendo parte das quedas anteriores. Por outro lado, o crédito continua restrito, com índice de facilidade de acesso em 38,6 pontos e o aumento dos custos de insumos (61,6 pontos) segue comprimindo as margens do setor.A Sondagem Indústria da Construção pode ser lida na íntegra aqui.
Construção Civil mantém liderança na geração de empregos
O Brasil ultrapassou em 2025 a marca de 3 milhões de trabalhadores formais na construção civil, o maior número desde 2014.
Apenas em julho, o setor criou 19.066 vagas com carteira assinada, o que representa 14,7% dos empregos formais gerados no país no período, segundo o Novo Caged. No total, foram registradas 221.024 admissões e 201.958 desligamentos, resultando em saldo positivo de 94% superior ao mês anterior.
O desempenho positivo reforça o papel da construção como um dos pilares da economia nacional. Além de empregar muito, o setor oferece salário médio de admissão (R$ 2.490,54) acima da média nacional (R$ 2.277,51). Todos os segmentos apresentaram avanço: construção de edifícios (+6.095 vagas), infraestrutura (+7.681) e serviços especializados (+5.290). O cenário de juros elevados continua sendo o principal entrave à expansão do emprego e dos investimentos. Na visão de Ieda Vasconcelos, economista-chefe da CBIC, “a taxa de juros nesse patamar inibe novos lançamentos e compromete o ritmo de contratações”. Ela lembra que a três trimestres consecutivos os empresários apontam o crédito caro como principal obstáculo ao crescimento.Ainda assim, a CBIC projeta crescimento de 2,3% no PIB da construção em 2025, sustentado por programas habitacionais e investimentos privados.
Custo do trabalho pressiona e impulsiona inflação da construção
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-DI) acumula alta de 6,78% em 12 meses até setembro, segundo o FGV IBRE.
O avanço representa uma aceleração frente aos 5,48% registrados no mesmo período de 2024 e reforça que a inflação da construção voltou a ganhar fôlego. A principal fonte de pressão vem da mão de obra, que respondeu por 4,06 pontos percentuais da variação total (mais da metade do aumento), enquanto materiais, equipamentos e serviços contribuíram com 2,72 pontos. Pedreiros, eletricistas e bombeiros figuram entre os profissionais com maior impacto no indicador, refletindo a escassez de mão de obra qualificada e a crescente competição entre empresas por profissionais especializados. Apenas o item “pedreiro” representa cerca de 8,5% do peso total do índice.Fonte: FGV IBRE
Segundo o FGV IBRE, quase 40% das empresas relatam dificuldade para contratar profissionais especializados – proporção que sobe para 46% no segmento de obras de acabamento. A falta de qualificação se traduz em altas médias de 10% no custo da mão de obra nos últimos 12 meses. “O cenário combina demanda aquecida, crédito mais farto e oferta limitada de trabalhadores qualificados – ingredientes perfeitos para manter o INCC acima da inflação geral”, resume a análise do instituto. Para 2026, a expectativa é que o ritmo de lançamentos e obras se intensifique com apoio da queda dos juros, de novos programas de crédito habitacional e de políticas de financiamento para reformas. O desafio será equilibrar crescimento e custos, acelerando a modernização e a industrialização do setor para evitar que o aumento do custo de construir supere o ritmo de expansão da economia.Leia também: Industrialização na construção na prática: da obra ao produto
Novo modelo de financiamento deve impulsionar crédito imobiliário a partir de 2026
Os números consolidados até agosto confirmam que o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) foi o principal motor do mercado imobiliário em 2025.
Segundo o Secovi-SP, as vendas na capital paulista caíram 19% em agosto em relação ao mesmo mês do ano anterior, refletindo uma retração generalizada tanto no segmento econômico quanto no de médio e alto padrão. Mesmo assim, o MCMV acumula alta de quase 24% no ano, representando 62% das unidades vendidas na cidade. Enquanto o segmento de média e alta renda teve queda de 6,7% no período, os imóveis de perfil econômico sustentaram parte do mercado. O crédito mais caro explica o desequilíbrio: em setembro, as taxas médias de financiamento com recursos do SBPE ultrapassaram 15% ao ano, reduzindo o apetite por novos lançamentos e a capacidade de investimento das famílias de renda intermediária. Até agosto, o número de unidades financiadas via SBPE caiu 20%, enquanto as operações pelo FGTS (MCMV) tiveram recuo de 4,7%.Para reverter esse quadro, o governo e o Banco Central anunciaram em outubro um novo modelo de financiamento imobiliário, que entra em vigor em 2026. A proposta muda o direcionamento dos recursos da poupança, permitindo que os bancos utilizem LCIs e LIGs para expandir a concessão de crédito, mantendo o cumprimento das exigibilidades. Com isso, as instituições terão mais liberdade para aplicar os recursos e oferecer juros mais baixos aos consumidores.
O novo modelo também prevê redução gradual do compulsório sobre depósitos de poupança de 20% para 15% em 2026, e o aumento do valor máximo dos imóveis financiáveis pelo SBPE, de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões. Essas medidas devem gerar um incremento estimado de R$ 40 bilhões na oferta de crédito imobiliário no próximo ano. As mudanças representam um alívio importante para o setor, que enfrentou em 2025 restrições severas de crédito e queda nas contratações. Com a nova regra e a expectativa de juros menores, o mercado imobiliário deve retomar o crescimento em 2026, especialmente nos segmentos de média e alta renda, que vinham sendo os mais impactados pelo custo do financiamento.FGV estima impacto de R$ 52 bilhões no PIB com o programa Reforma Casa Brasil
O programa Reforma Casa Brasil, lançado recentemente pelo governo federal, tem potencial para adicionar R$ 52,9 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) e gerar quase R$ 20 bilhões em impostos, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).
A iniciativa prevê R$ 40 bilhões em crédito habitacional destinados à reforma e ampliação de residências de famílias de classe média que já possuem imóvel próprio, mas enfrentam problemas estruturais ou de adequação. De acordo com o levantamento, se a totalidade dos recursos fosse liberada em um único ano, o impacto direto sobre o PIB da construção seria de R$ 17,7 bilhões. Considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos – como a movimentação da cadeia produtiva e o aumento do consumo –, o programa poderia elevar o PIB nacional em 0,38 ponto percentual.Os efeitos indiretos incluem o aquecimento da indústria e do comércio de materiais de construção, que poderiam somar R$ 35,2 bilhões em produção adicional, segundo o estudo coordenado por Ana Maria Castelo, do Ibre/FGV.
O estudo também estima que a arrecadação de tributos decorrente da medida alcance R$ 19,6 bilhões, impulsionada pelos efeitos de encadeamento produtivo do setor. Ainda assim, os pesquisadores alertam que o impacto dependerá da forma de operacionalização e liberação dos recursos. Segundo dados da Fundação João Pinheiro, o Brasil tem 27,6 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação, o que corresponde a 40,8% das moradias urbanas duráveis. Nesse contexto, o Reforma Casa Brasil surge como uma oportunidade para reduzir o déficit habitacional qualitativo, estimular a economia e fortalecer toda a cadeia da construção civil.