Construção mantém ritmo entre custos altos e sinais de cautela

Enquanto a confiança recua e os custos seguem pressionados, expectativas melhoram e vendas de imóveis crescem, impulsionadas pelo Minha Casa, Minha Vida

Por Celere Publicado em 08/09/2026 Leitura: 9 min
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Construção mantém ritmo entre custos altos e sinais de cautela

Enquanto a confiança recua e os custos seguem pressionados, expectativas melhoram e vendas de imóveis crescem, impulsionadas pelo Minha Casa, Minha Vida

A construção civil chega ao fim de agosto com sinais que, à primeira vista, podem parecer contraditórios. Enquanto a confiança das empresas voltou a recuar e os custos seguem pressionados, outros indicadores mostram melhora nas expectativas e um mercado imobiliário que continua encontrando espaço para crescer.

O Índice de Confiança da Construção (ICST) caiu 0,6 ponto no mês, embora o nível de utilização da capacidade instalada tenha avançado. Já a Sondagem Indústria da Construção mostrou uma recuperação das expectativas dos empresários para os próximos meses, com atividade e compras de insumos voltando ao campo positivo.

No lado dos custos, a pressão continua sendo um ponto de atenção. O INCC-M acelerou para 0,85% em agosto, puxado principalmente pela mão de obra, enquanto o Sinapi apresentou uma desaceleração mensal em julho, mas ainda acumula alta de 7,40% em 12 meses.

Em meio a esse cenário, o mercado imobiliário mantém resultados positivos. As vendas de imóveis residenciais novos cresceram 5,4% no primeiro semestre de 2026, enquanto o Minha Casa, Minha Vida alcançou participação recorde nos lançamentos, respondendo por 58% das novas unidades no segundo trimestre.

Nesta edição do Giro de Notícias, reunimos os principais números das últimas semanas para entender o que eles revelam sobre custos, atividade, confiança e demanda na construção civil.

Confiança da construção recua em agosto, aponta FGV

O Índice de Confiança da Construção (ICST) recuou 0,6 ponto em agosto e chegou a 91,9 pontos, segundo a Sondagem da Construção divulgada pela FGV IBRE.

Confiança da construção recua em agosto, aponta FGV

Na média móvel trimestral, a queda foi de 0,3 ponto, para 92 pontos. O resultado interrompe o avanço de 0,8 ponto registrado em julho e foi influenciado tanto pela piora da percepção sobre a situação atual quanto das expectativas para os próximos meses.

O Índice de Situação Atual (ISA-CST) caiu 0,4 ponto, para 91,7, enquanto o Índice de Expectativas (IE-CST) teve queda mais acentuada, de 0,9 ponto, chegando a 92,1. Entre os componentes das expectativas, a demanda prevista apresentou leve avanço de 0,1 ponto, mas a tendência dos negócios recuou 1,8 ponto, para 90,3.

Apesar da queda na confiança, alguns indicadores mostram que a atividade segue aquecida.

O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) avançou 2,7 pontos percentuais e chegou a 78,8%. Na mão de obra, o indicador alcançou 80,3%, enquanto máquinas e equipamentos chegaram a 72,9%. A FGV também identificou melhora recente na percepção sobre o crescimento da atividade, revertendo parte da desaceleração observada pelas empresas no primeiro semestre.

Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV IBRE, os diferentes segmentos apresentaram comportamentos distintos em agosto. Edificações residenciais, obras de artes especiais e instalações registraram melhora no ambiente de negócios, enquanto edificações não residenciais, obras viárias e de acabamento apresentaram deterioração. Ainda assim, a economista ressalta que "o setor vai sustentando um patamar elevado de atividade em 2026", mesmo diante da alta dos custos e da falta de mão de obra.

INCC-M acelera em agosto com pressão da mão de obra

O Índice Nacional de Custo da Construção – M (INCC-M) subiu 0,85% em agosto, acelerando em relação à alta de 0,62% registrada em julho, segundo a FGV IBRE. No acumulado do ano, o indicador chegou a 5,59%, enquanto em 12 meses registra avanço de 6,56%, abaixo dos 7,49% observados no mesmo período de 2025.

INCC-M acelera em agosto com pressão da mão de obra

A principal pressão veio da mão de obra, cuja variação passou de 0,93% em julho para 1,56% em agosto. Em sentido contrário, Materiais, Equipamentos e Serviços desaceleraram de 0,40% para 0,33%. Somente entre Materiais e Equipamentos, a variação caiu de 0,42% para 0,33%, com destaque para os materiais de acabamento, cuja alta recuou de 0,73% para apenas 0,13%.

INCC-M acelera em agosto com pressão da mão de obra – descrições

Regionalmente, cinco das sete capitais pesquisadas apresentaram aceleração dos custos: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo. Porto Alegre registrou a maior alta mensal, de 1,89%, seguida por Brasília (1,70%) e São Paulo (1,10%). Salvador e Recife, por outro lado, apresentaram desaceleração.

INCC-M acelera em agosto com pressão da mão de obra - municípiosExpectativas da construção melhoram em agosto

As expectativas dos empresários da construção voltaram a melhorar em agosto, revertendo parte da piora registrada no mês anterior, segundo a Sondagem Indústria da Construção, da CNI.

O índice de expectativa para o nível de atividade avançou de 49,2 para 50,6 pontos, voltando a indicar perspectiva de crescimento para os próximos seis meses. Já a expectativa de compras de insumos e matérias-primas teve a maior alta entre os indicadores, passando de 48,3 para 50,1 pontos. Nos indicadores da pesquisa, valores acima de 50 representam expectativas positivas.

Expectativas da construção melhoram em agosto

A melhora, no entanto, ainda não é generalizada. A expectativa para o número de empregados avançou de 49,1 para 50 pontos, indicando estabilidade, enquanto o índice relacionado a novos empreendimentos e serviços caiu de 48,9 para 48,7 pontos. Este foi o único dos quatro indicadores de expectativas que permaneceu no campo negativo pelo segundo mês consecutivo.

Os sinais mais positivos também contribuíram para uma recuperação da confiança dos empresários. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da Construção avançou 1,6 ponto em agosto, de 45,6 para 47,2 pontos, impulsionado pela melhora tanto das expectativas quanto da avaliação das condições atuais. Apesar do avanço, o indicador permaneceu abaixo dos 50 pontos e completou 20 meses consecutivos de falta de confiança no setor.

Expectativas da construção melhoram em agosto – ICEI da construção

Os dados referentes à atividade efetivamente registrada em julho também ajudam a explicar essa cautela. O índice de evolução do nível de atividade ficou em 47,3 pontos, ainda indicando queda, enquanto o indicador de emprego chegou a 48,3. A Utilização da Capacidade Operacional (UCO), por sua vez, recuou de 67% para 66%, dois pontos percentuais abaixo do registrado em julho de 2025. Já a intenção de investimento permaneceu estável em 42,4 pontos, ainda acima de sua média histórica, de 38,4.

Sinapi desacelera para 0,44% em julho

O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) registrou alta de 0,44% em julho, uma desaceleração de 0,75 ponto percentual em relação aos 1,19% observados em junho, segundo o IBGE. Apesar da perda de ritmo no mês, o indicador acumula 7,40% nos últimos 12 meses, acima dos 7,26% registrados no período imediatamente anterior. Em julho de 2025, a variação mensal havia sido de 0,31%.

O custo nacional da construção chegou a R$ 1.985,10 por metro quadrado, ante R$ 1.976,37 em junho. Desse total, R$ 1.120,13 correspondem aos materiais e R$ 864,97 à mão de obra. As duas parcelas desaceleraram no mês: os materiais passaram de 0,92% em junho para 0,48% em julho, enquanto a mão de obra recuou de 1,55% para 0,39%, influenciada pelo menor número de acordos coletivos firmados no período.

Mesmo com a desaceleração mensal, os dados acumulados mostram que a pressão sobre os custos permanece relevante, especialmente na mão de obra. Em 12 meses, essa parcela registra alta de 9,56%, enquanto os materiais acumulam 5,81%. No ano, os avanços são de 6,37% e 3,88%, respectivamente.

Regionalmente, o Centro-Oeste apresentou a maior variação em julho, de 1,18%, impulsionada pela alta em todos os estados e por reajustes das categorias profissionais em Goiás. O estado, por sinal, teve a maior variação do país, de 2,58%, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 1,86%. Entre as demais regiões, as altas foram de 0,74% no Norte, 0,69% no Sul, 0,33% no Nordeste e 0,19% no Sudeste.

Vendas de imóveis crescem 5,4% no primeiro semestre

O mercado imobiliário brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com 226.536 imóveis residenciais novos vendidos, alta de 5,4% em relação ao mesmo período de 2025, segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC. Somente no segundo trimestre, foram comercializadas 113.676 unidades, crescimento de 5,3% na comparação anual e de 0,7% frente aos três primeiros meses deste ano.

Vendas de imóveis crescem 5,4% no primeiro semestre

Os lançamentos tiveram desempenho mais moderado. Foram 211.651 novas unidades no primeiro semestre, praticamente estáveis (-0,3%) em relação ao mesmo período de 2025. Entre abril e junho, 107.161 imóveis foram lançados, alta de 2,6% sobre o trimestre anterior, mas queda de 1,3% na comparação anual. Para o presidente da CBIC, Eduardo Aroeira Almeida, os resultados demonstram a sustentação do mercado mesmo com os juros elevados, que continuam encarecendo o financiamento e limitando a capacidade de compra das famílias.

O principal destaque do levantamento, porém, foi o Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O programa respondeu por 58% de todos os imóveis lançados no país no segundo trimestre, maior participação desde o início da série histórica, em 2019. Foram 62.129 unidades, alta de 19,9% frente ao primeiro trimestre, quando metade dos lançamentos estava enquadrada no programa. O MCMV também respondeu por 51% das vendas realizadas entre abril e junho, com 58.392 unidades comercializadas.

Regionalmente, as vendas cresceram em todas as regiões na comparação com o segundo trimestre de 2025, com destaque para o Centro-Oeste (+27,7%), seguido por Norte (+15%) e Nordeste (+13,6%). Nos lançamentos, entretanto, houve maior diferença: Nordeste (+24,6%) e Centro-Oeste (+19,1%) avançaram, enquanto Sul (-25,1%) e Norte (-35,2%) registraram retração. A presença do MCMV também varia pelo país: o programa respondeu por 68% dos lançamentos no Norte e 66% no Sudeste, enquanto no Sul a participação ficou em 29%.

A oferta de imóveis novos encerrou junho em 355.290 unidades, queda de 2,1% frente ao primeiro trimestre, embora ainda 8,2% acima do registrado um ano antes. Entre os imóveis vendidos, os de dois dormitórios concentraram 65,2% das negociações, seguidos pelas unidades de um dormitório, com 23,1%. Os dados reforçam, assim, um primeiro semestre marcado pelo avanço das vendas e pela crescente influência do Minha Casa, Minha Vida sobre o perfil do mercado residencial brasileiro.


Imagem de destaque: Josue Isai Ramos Figueroa na Unsplash