Construção entra no segundo semestre sob maior pressão

Construção civil enfrenta custos em alta, queda na confiança e redução das expectativas, apesar do crescimento das vendas de cimento

Por Celere Publicado em 13/08/2026 Leitura: 9 min
Compartilhar:
Construção entra no segundo semestre sob maior pressão

Custos aceleram, confiança recua e indústria de materiais reduz projeção de crescimento, enquanto as vendas de cimento ainda sustentam um sinal positivo no setor

A construção civil encerrou o primeiro semestre com indicadores que apontam continuidade da atividade, mas também sinais de maior cautela para os próximos meses. Enquanto a comercialização de cimento avançou, os custos aceleraram e a indústria de materiais revisou para baixo sua projeção de crescimento para 2026, refletindo um ambiente ainda desafiador, marcado por juros elevados e pressão sobre os custos.

Nesta edição do Giro de Notícias, reunimos os principais indicadores divulgados nas últimas semanas, que ajudam a entender o desempenho recente do setor e as perspectivas para o restante do ano. Acompanhe!

Pessimismo volta a dominar a construção e setor reduz expectativas para o segundo semestre

As perspectivas da indústria da construção ficaram mais negativas para o segundo semestre de 2026.

Segundo a Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), todos os indicadores de expectativas recuaram em julho e passaram a sinalizar retração da atividade, dos lançamentos, da contratação de trabalhadores e da compra de insumos nos próximos seis meses. É a primeira vez desde abril de 2020, no início da pandemia de Covid-19, que os quatro indicadores cruzam simultaneamente a linha de 50 pontos, que separa perspectivas positivas e negativas.

O cenário reflete um ambiente financeiro que segue desafiador para as empresas. Embora alguns indicadores tenham apresentado leve melhora no segundo trimestre, a satisfação com a situação financeira (45,2 pontos), o lucro operacional (41,7 pontos) e a facilidade de acesso ao crédito (39,3 pontos) permaneceram abaixo dos 50 pontos, indicando que a maioria dos empresários continua insatisfeita com as condições do negócio.

Ao mesmo tempo, o índice que mede a evolução dos preços de insumos e matérias-primas recuou para 66,2 pontos, mostrando que os custos seguem em alta, ainda que com menor intensidade do que no trimestre anterior.

Na avaliação da CNI, a combinação entre juros elevados, crédito restrito e aumento dos custos continua comprometendo a saúde financeira das empresas. Não por acaso, as taxas de juros permaneceram como o principal problema enfrentado pelo setor, apontadas por 36,2% dos empresários, seguidas pela elevada carga tributária (33,6%), pela falta ou alto custo de mão de obra não qualificada (28,9%) e pela escassez de trabalhadores qualificados (28,6%).

Os indicadores de desempenho também perderam força. O índice de evolução do nível de atividade caiu de 49,1 para 47,2 pontos, enquanto o indicador de evolução do número de empregados recuou para 47,9 pontos. Apesar disso, a utilização da capacidade operacional permaneceu estável em 67%, mesmo patamar registrado no mesmo período do ano passado, acumulando crescimento de três pontos percentuais no primeiro semestre de 2026.

O principal sinal de alerta, no entanto, está nas expectativas para os próximos meses. O índice de expectativa para compra de insumos apresentou a maior queda, passando de 52,8 para 48,3 pontos. Também ficaram abaixo da linha de equilíbrio os indicadores de nível de atividade (49,2), número de empregados (49,1) e novos empreendimentos e serviços (48,9), indicando que os empresários projetam um ritmo menor para o setor ao longo do segundo semestre.

Pessimismo volta a dominar a construção e setor reduz expectativas para o segundo semestre

A piora das perspectivas também reduziu a confiança e a disposição para novos investimentos. Em julho, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da construção caiu para 45,6 pontos, ampliando o pessimismo em relação ao desempenho das empresas e da economia brasileira.

ICEI da construção

No mesmo período, o indicador de intenção de investimento recuou de 43,7 para 42,4 pontos, reforçando o cenário de maior cautela por parte das construtoras diante das incertezas econômicas.

ABRAMAT reduz projeção para a indústria de materiais de construção após queda no primeiro semestre

O desempenho da indústria brasileira de materiais de construção ficou abaixo das expectativas no primeiro semestre de 2026 e levou a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT) a revisar para baixo sua projeção de crescimento para o ano. Após registrar retração de 3,4% no faturamento deflacionado em relação ao mesmo período de 2025, a entidade reduziu a estimativa de expansão do setor de 1,9% para 0,5%, refletindo um cenário de recuperação mais lenta do que o esperado.

Apesar da revisão, os dados de junho indicam uma reação da atividade. Na comparação com maio, considerando os números dessazonalizados, o faturamento da indústria avançou 1,9%, impulsionado principalmente pelos materiais básicos, que cresceram 2,4%. Os materiais de acabamento também apresentaram alta mensal de 1,5%, embora, na comparação com junho do ano passado, o segmento ainda tenha registrado retração de 2,1%, enquanto os materiais básicos cresceram 1,4%.

Segundo o presidente executivo da ABRAMAT, Mauro Franco, o resultado mostra que a indústria mantém capacidade de reação, especialmente nos segmentos mais ligados ao ritmo da construção, mas o desempenho acumulado do primeiro semestre exigiu uma revisão das projeções para 2026. Entre os fatores que continuam limitando uma recuperação mais consistente estão a manutenção dos juros em patamar elevado, o alto endividamento das famílias e o desempenho abaixo do esperado do programa Reforma Casa Brasil.

Os indicadores de longo prazo reforçam que a retomada ainda ocorre de forma gradual. No acumulado dos últimos 12 meses, o faturamento deflacionado da indústria registra retração de 3,8%, evidenciando que a recuperação permanece desigual entre os diferentes segmentos e ainda distante do ritmo inicialmente projetado pela entidade.

Mesmo com a redução das expectativas, a ABRAMAT avalia que o processo de recuperação deverá continuar ao longo do segundo semestre, ainda que em intensidade menor. Para a entidade, o ambiente macroeconômico, marcado por juros elevados e incertezas geopolíticas, segue sendo o principal fator a limitar uma retomada mais acelerada da indústria de materiais de construção.

INCC-M acelera em junho e acumula alta de 6,71% em 12 meses

O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) acelerou em junho e registrou alta de 0,85%, acima dos 0,77% observados em maio. Com o resultado, o indicador acumula avanço de 4,05% no ano e de 6,71% nos últimos 12 meses, mantendo a pressão dos custos da construção, embora em ritmo inferior ao registrado no mesmo período de 2025.

INCC-M acelera em junho e acumula alta de 6,71% em 12 meses

A principal influência para a aceleração do índice veio da mão de obra, cuja variação passou de 0,43% em maio para 0,91% em junho. Em contrapartida, o grupo Materiais, Equipamentos e Serviços desacelerou, com alta de 0,80%, abaixo dos 1,02% registrados no mês anterior. O movimento reflete uma perda de ritmo tanto nos materiais quanto nos serviços utilizados pela construção.

Dentro desse grupo, a categoria de Materiais e Equipamentos desacelerou de 1,08% para 0,86%, puxada principalmente pelo subgrupo de materiais para estrutura, cuja variação caiu de 0,99% para 0,73%. Já os Serviços passaram de 0,50% para 0,28%, influenciados pela redução da alta da conta de energia, que recuou de 3,02% para 1,10%.

Na análise regional, cinco das sete capitais pesquisadas apresentaram desaceleração em junho: Salvador (BA), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Recife (PE) e Porto Alegre (RS). Em sentido contrário, Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) registraram aceleração nos custos da construção, reforçando a pressão observada no índice nacional.

INCC-M acelera em junho e acumula alta de 6,71% em 12 meses – Cidades

Sinapi acelera para 1,19% em junho e custo da construção chega a R$ 1.976 por metro quadrado

O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) avançou 1,19% em junho, ficando 0,83 ponto percentual acima da taxa de maio, de 0,36%. Foi o maior resultado desde agosto de 2022, com exceção de janeiro deste ano, quando o indicador foi impactado pela reoneração da folha de pagamento das empresas do setor. No acumulado de 2026, a alta chegou a 4,48%, enquanto a variação em 12 meses passou de 6,93% para 7,26%.

Com a aceleração, o custo nacional da construção por metro quadrado subiu de R$ 1.953,08 em maio para R$ 1.976,37 em junho. Desse total, R$ 1.114,74 correspondem aos materiais e R$ 861,63 à mão de obra. A parcela dos materiais avançou 0,92%, maior taxa do ano e acima tanto do resultado de maio, de 0,53%, quanto do registrado no mesmo mês do ano anterior, de 0,41%.

A mão de obra apresentou variação ainda maior, de 1,55%, também a mais elevada de 2026, influenciada por diversos acordos coletivos firmados no período. No primeiro semestre, os custos da mão de obra acumularam alta de 5,96%, diante de 3,39% dos materiais. Em 12 meses, as variações chegaram a 9,59% e 5,54%, respectivamente.

Entre as regiões, o Nordeste registrou a maior alta mensal, de 1,45%, com aumento em todos os estados e influência dos reajustes profissionais no Ceará e em Pernambuco. Na comparação estadual, Pernambuco liderou as elevações, com 2,98%, seguido por Rondônia, com 2,63%, Ceará, com 2,52%, e São Paulo, com 2,34%.

Venda de cimento cresce 2,3% no primeiro semestre, impulsionada por forte desempenho em junho

A venda de cimento no Brasil cresceu 2,3% no primeiro semestre de 2026, totalizando 32,9 milhões de toneladas comercializadas, segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Snic). Apesar do resultado positivo, a entidade projeta que o ano encerre com crescimento de 2%, abaixo dos avanços registrados em 2025 (3,7%) e em 2024 (3,9%).

O desempenho semestral foi impulsionado por um mês de junho especialmente forte. Foram vendidas 5,8 milhões de toneladas de cimento, alta de 7,7% em relação ao mesmo mês do ano passado e o melhor resultado para um mês de junho desde o início da série histórica, em 1950. O despacho por dia útil também avançou 3%, alcançando 253,6 mil toneladas.

Regionalmente, o Nordeste liderou o crescimento das vendas, com alta de 7,8% no semestre, favorecido pelo avanço da construção civil e dos empreendimentos habitacionais, incluindo o programa Minha Casa, Minha Vida. O Norte registrou crescimento de 3,9%, seguido por Sul (2,5%) e Centro-Oeste (1,1%). Já o Sudeste, responsável por 45% do consumo nacional, apresentou leve retração de 0,1%.

No acumulado dos últimos 12 meses, as vendas atingiram 67,7 milhões de toneladas, crescimento de 2,9% sobre o período anterior. Segundo o Snic, a capacidade instalada da indústria, de 109 milhões de toneladas por ano, é suficiente para atender à demanda mesmo diante de uma expansão mais acelerada do mercado.

Apesar das perspectivas positivas para 2026, o setor vê desafios para os próximos meses. Entre as principais preocupações estão o elevado endividamento das famílias, que pode afetar o consumo, e o aumento dos custos de produção, pressionados pela alta dos fretes e do petróleo. O Snic estima que o cenário internacional possa elevar os custos da indústria em até 13% e também alerta para um possível aumento de 15% nas despesas trabalhistas caso seja aprovada a mudança na jornada de trabalho 6x1.


Imagem de destaque: Ben Allan na Unsplash