Tem um descompasso curioso em curso no mercado de capitais: as 27 incorporadoras de capital aberto acompanhadas pelo Valor Data fecharam o primeiro trimestre de 2026 com avanço de indicadores financeiros em relação a 2025. Mas, entre as listadas, o preço médio das ações acumulava queda de 39,46% no ano até meados de maio.
É impossível não se perguntar por que mesmo com os bons resultados as ações estão caindo, certo? Segundo especialistas, a explicação está menos no que aconteceu e mais no que o mercado teme que pode acontecer.
Analistas do Bradesco BBI e do Santander entrevistados pelo Valor explicam que o que está pressionando os papéis é a expectativa de que a alta do petróleo (consequência da guerra no Irã) contamine o INCC nos próximos meses e comprima margens, especialmente no Minha Casa, Minha Vida.
Hoje quero discutir com você por que essa leitura merece atenção.
O que o mercado está precificando
O INCC-M avançou 1,04% em abril (como detalhei na ConstruFoco #64) e acumula 6,28% em 12 meses. Se a alta do petróleo se sustentar, a projeção é que o índice se aproxime de 10%.
O INCC entra direto na conta de quem produz e, para empresas expostas ao MCMV, esse impacto não pode ser repassado ao comprador durante a obra, diferentemente do que acontece nos segmentos de média e alta renda. É esse o cenário que o mercado está antecipando ao puxar os papéis para baixo, mesmo com balanços positivos no retrovisor.
O operacional conta outra história
Quem acompanha as companhias de perto enxerga o quadro de outra forma. Fanny Oreng, líder da equipe de analistas de mercado imobiliário do Santander, avalia que "o mercado está precificando uma queda de margens que a gente não vai ver". Aliás, tanto Santander quanto Bradesco BBI reconhecem que as companhias seguem em momento operacional positivo, conseguindo repassar preço e mantendo a velocidade de vendas.
Os próprios executivos do setor reagiram. Ricardo Gontijo, CEO da Direcional, classificou a leitura do mercado como exagerada, e Leonardo Mesquita, co-presidente da Cury, foi direto: "A gente não vende petróleo". Para ele, a capacidade de repassar preço existe, mas é exercida com critério (no momento do lançamento), quando a pressão de venda e a sensação de urgência no comprador estão a favor, e não automaticamente em todo o estoque a cada reajuste de fornecedor.
O que separa quem sustenta margem de quem não sustenta
O padrão por trás das empresas que estão atravessando bem esse cenário é de disciplina de custo implantada antes do choque chegar.
Nas teleconferências do primeiro trimestre, as companhias se esforçaram para detalhar o que já chegou de inflação e como estão revisando custos, com o objetivo claro de não repetir o estouro generalizado que marcou o setor na pandemia. Rafael Menin, co-presidente da MRV, destacou que o estoque de unidades em construção ainda não vendidas (antes lido como problema) virou trunfo, justamente porque a maior parte do custo de obra já foi incorrida.
Na prática, o que acontece é que a precificação parte da premissa de que as empresas não vão conseguir reagir, enquanto os executivos respondem mostrando que já estão reagindo.
Quem está na ponta produtiva sabe que os responsáveis por essa reação são orçamento detalhado, cotação ativa, leitura de curva ABC obra a obra, controle de fornecedor e capacidade de repasse nos ajustes dos preços dos estoque. Todos esses fatores se refletem na margem de cada negócio.
Esse é o tipo de capacidade que decide quem captura rentabilidade e quem só absorve custo nos próximos trimestres.
O que muda no seu próximo empreendimento
Se você está rodando obra ou montando viabilidade agora, este é o cenário em que a vantagem competitiva se constrói no detalhe.
- No planejamento, manter o cronograma físico-financeiro acoplado ao custo real é o que protege a margem quando o INCC corre mais rápido que o esperado.
- No orçamento de partida, ler o custo unitário de hoje é o que define se a margem projetada é real ou só uma planilha confortável.
- No acompanhamento, identificar desvios de curva no momento em que acontecem é o que permite agir antes do impacto compor.
Esse é o tipo de leitura granular que a Celere entrega para incorporadoras e construtoras. Um orçamento ajustado ao ciclo do empreendimento, capaz de mostrar onde a pressão de custo está chegando antes que ela apareça no resultado.
Se o cenário macroeconômico está te tirando o sono, esse é um bom momento para revisar como o custo do seu próximo empreendimento está sendo lido. Entre em contato e vamos conversar sobre o seu caso.
Boa semana!
Raphael Chelin
CEO
Imagem de destaque: Mark Potterton na Unsplash