Raphael Chelin, CEO da Celere, revela os três pilares que separam empresas com previsibilidade de custos daquelas que vivem justificando desvios
Do palco da primeira edição presencial do Incorpod, que aconteceu em Goiânia (GO) no fim de 2025, Raphael Chelin, CEO da Celere, lançou três perguntas ao público:
- Quem aqui já estourou o custo de uma obra?
- Quem está estourando custo de obra e não consegue achar todas as respostas do porquê?
- Quem tem total segurança de que sua obra vai terminar exatamente no valor orçado hoje?
Uma simples análise das mãos levantadas ao fim de cada pergunta deixou claro que quase todo mundo já estourou custo de obra, mas pouquíssimos têm segurança de que isso não vai acontecer novamente.

Essa cena evidenciou o paradoxo que Raphael viria a destrinchar: a construção civil vive um momento em que as incorporadoras focam intensamente na viabilidade comercial, na estruturação financeira e nas vendas, mas deixam a engenharia em segundo plano.
O problema é que a construção representa a maior linha de custo do negócio, e é justamente onde reside a maior variabilidade – mais empreiteiros, mais serviços, mais riscos. "Tem muito dinheiro sendo deixado na mesa porque o processo de engenharia não é totalmente confiável", alertou o CEO da Celere.
Para mudar esse jogo, ele apresentou o "motor da otimização", um sistema composto por três pilares (pré-obra, tecnologia e dados) que separam empresas que têm previsibilidade de custos daquelas que vivem justificando desvios, e que ajuda a eliminar o improviso e profissionalizar a engenharia de custos.

Pilar #1 – Pré-obra: onde o custo se define (e te persegue)

O pré-obra nasce no momento da viabilidade, quando o negócio está sendo estruturado e o primeiro número de custo é estimado. Segundo Raphael, essa fase é atravessada por muitas etapas críticas, então ele decidiu destacar três:
- Orçamento paramétrico;
- Levantamento de quantidades;
- E governança.
Orçamento paramétrico
– ou por que médias de mercado não funcionam
Na viabilidade, a maioria das empresas trata o paramétrico como "estimativa rápida para fechar conta". Ou seja, multiplica o CUB pela área, faz regra de três, define um valor e segue em frente.
Esse custo definido de forma genérica não acompanha a obra – ele persegue. Toda a cadeia (projetos, orçamento preliminar, compras, execução) é cobrada por um número não muito bem calculado.
Para explicitar por que médias de mercado nem sempre funcionam, Raphael compartilhou números reais do banco de dados da Celere.
Segundo ele, os custos médios de construção variam de R$ 2.800/m² para empreendimentos econômicos até R$ 4.200/m² para alto padrão – referências que, à primeira vista, parecem úteis para estimar qualquer projeto. Mas a realidade é mais complexa. Dois empreendimentos do mesmo padrão podem ter custos radicalmente diferentes por causa de variáveis que essas médias não capturam.
- A área do empreendimento, por exemplo, impacta diretamente o custo indireto. Um empreendimento de 5.000 m² pode ter custo indireto de R$ 500/m², enquanto outro de 15.000 m² dilui esse custo para R$ 170/m². A obra menor não consegue enxugar equipe de obra, estrutura administrativa nem prazo na mesma proporção da redução de área.
- Outro exemplo é a contenção. Peguemos como base dois projetos com três subsolos e R$ 750 mil de custo de contenção. No empreendimento de 5.000 m², isso representa R$ 150/m² só de contenção. No de 15.000 m², o custo cai para R$ 50/m². "Se você usar a 'conta de padeiro' de R$ 3.100/m² sem considerar essas particularidades, pode estourar R$ 100/m² sem nem conseguir identificar de onde veio o desvio", alertou Raphael.
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Drywall vs. alvenaria: o custo que você não vê
O executivo da Celere também apresentou um case que ilustra como decisões de projeto impactam custos de forma sistêmica, não isolada.
Ele falou sobre duas obras do mesmo cliente, com características parecidas (cerca de 20.000 m², 30+ pavimentos, mesmos projetistas, mesma construtora, mesmos empreiteiros, mesma metodologia construtiva), mas que tinham uma única diferença: uma usou alvenaria de vedação, a outra usou drywall.
À primeira vista, o drywall parece mais caro – e de fato é, quando se compara apenas o custo de vedação por m². Mas quando se analisa o sistema completo, a história muda.
- Vedação: drywall custou R$ 30/m² a mais que alvenaria.
- Revestimentos: drywall economizou R$ 30/m² porque eliminou reboco e outros serviços de revestimento.
Até aqui, empate técnico. Mas os impactos não param aí.
- Estrutura: como drywall é mais leve que alvenaria, a carga sobre a estrutura diminui. Resultado: economia de R$ 100/m² na estrutura por conta de lâmina menor e taxa de aço reduzida.
- Fundação: estrutura mais leve significa fundação mais enxuta – outra economia que se soma.
- Outros ganhos indiretos: menos resíduo, menos caçambas, prazo de execução reduzido.
No final, a decisão que parecia mais cara por m² gerou economia significativa quando se olhou o empreendimento como sistema integrado – um exemplo claro de por que orçamento paramétrico detalhado faz diferença.
Levantamento de quantidades
Dando foco no processo de levantamento de quantidades, aqui o Raphael foi direto ao problema: na maioria das empresas, essa etapa é delegada para estagiários ou engenheiros juniores, com uma "planilhinha básica" e pouca orientação. O problema é que levantamento de quantidades não é uma tarefa simples. Além de saber qual serviço, qual a metodologia construtiva, quais os materiais alocados, é preciso conhecer critérios de medição da sua realidade (empresa). Além disso, para um levantamento ser bem feito é preciso ter o quantitativo total e cada serviço discriminado por local – em cada torre, em cada pavimento, em cada unidade, em cada ambiente. "Pilar a pilar, viga a viga, laje a laje, parede a parede".
Ou seja, não tem atalho. É trabalhoso. Mas quando bem feito, esse levantamento serve para tudo – orçar, planejar, comprar, contratar, fazer administração contratual.
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Governança
A governança, caracterizada pela definição de processos claros sobre quem faz o quê, quando e como, é o terceiro passo do primeiro pilar do motor da otimização.
Na maioria das empresas, cada área faz mais ou menos de um jeito, com a planilha que trouxe de outra empresa. O resultado: a pessoa de orçamento levanta quantitativo, a de compras levanta de novo, a da obra levanta de novo. E três pessoas levantando o mesmo quantitativo dão três números diferentes.
Em qual você confia? Ninguém confia em nenhum.
A solução é a gestão baseada em escopo único. Se o projeto não mudou, se a forma de contratar não mudou, se a metodologia construtiva não mudou, o quantitativo não muda. Uma única fonte de verdade alimenta todas as áreas.
Pilar #2 – Tecnologia: processo antes de ferramenta

Antes de falar sobre tecnologia, Raphael trouxe uma máxima: "existem dois tipos de processo – padrão ou 'podrão'. Ou você tem um processo que todo mundo segue, ou ninguém segue e cada um faz de um jeito".
Como ele lembrou, sem processo padronizado, não há tecnologia que aumente eficiência de verdade. Pelo contrário. Tecnologia sem processo só acelera o caos.
BIM: a distância entre adoção e uso efetivo
Quando o assunto é tecnologia na construção civil, BIM costuma ser a primeira solução que vem à mente. O problema é que a maioria das empresas usa BIM apenas para compatibilização de projetos – e desperdiça todo o potencial da ferramenta.
Raphael apresentou dados de pesquisa com mais de 300 empresas que revelam a distância entre ter BIM e usar BIM:
- 70% das empresas fazem "algum uso" de BIM – o que muitas vezes significa apenas contratar um projetista que entrega modelo 3D.
- 14% confiam nos quantitativos extraídos do modelo. Se não confia, alguém vai ter que levantar – e normalmente é o estagiário, no AutoCAD, refazendo tudo do zero.
- Apenas 7% reutilizam as informações do modelo ao longo da obra. Ou seja: levantou quantitativo do BIM uma vez, não usou para planejar, não usou para comprar, não usou para controlar. O modelo virou arquivo morto.
O recado é claro: BIM precisa ir além da compatibilização. É preciso colocar dados estruturados dentro do modelo e pensar em como essas informações alimentam toda a cadeia – orçamento, planejamento, compras, execução.
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Automação: da teoria à prática
Além de estruturar dados no BIM, a Celere também usa automação para eliminar retrabalho.
Raphael contou, por exemplo, que cada cliente preenche um checklist de 400-500 linhas detalhando como executa a obra. Esse documento é automaticamente transformado em dados estruturados que alimentam o orçamento – sem ninguém ter que digitar manualmente. O mesmo acontece com memoriais descritivos: documentos Word são convertidos em tabelas na plataforma por automação.
Na modelagem BIM, a evolução foi ainda mais significativa. Quando a Celere começou a implementar BIM, eram precisos três dias para modelar a estrutura de um projeto e mais três dias para inserir dados no modelo. Hoje, são dois dias para modelar e apenas 1h30 para alimentar, porque robôs fazem o trabalho repetitivo de classificação e atribuição de dados.
O resultado é uma plataforma que calcula quantitativos automaticamente, aplicando os critérios de medição específicos de cada empresa, e gera lista rastreável vinculada à EAP, pronta para importar no ERP.
A pergunta que fica é: quantas atividades repetitivas na sua empresa poderiam ter 70-80% do tempo reduzido?
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Pilar #3 – Dados: transformar informação em decisão

Por fim, o terceiro pilar do motor da otimização são os dados. "Sem dado, você toma decisão no achismo. Com dado errado, você toma decisão errada com confiança. Com dado certo, você antecipa o problema antes que vire prejuízo", destacou Raphael.
Segundo ele, para transformar dados em conhecimento, três pontos são fundamentais:
- Quem coloca a informação tem que saber o que está fazendo – Se quem alimenta o sistema não tem conhecimento técnico, o que sai do outro lado é lixo com cara de dado confiável.
- Os dados têm que estar estruturados – Não adianta ter três orçamentistas bons, cada um com sua planilha cheia de abas e fórmulas. Sem estruturação, não há como consolidar informação de forma consistente. É preciso uma "engenharia de dados", entender como organizar e estruturar informações para que virem conhecimento utilizável.
- Uso inteligente dos dados – Com expertise técnica e dados estruturados, aí sim é possível fazer uso inteligente e transformar informação em decisão fundamentada.
Como construir a fundação que sustenta a previsibilidade
Ao encerrar sua apresentação sobre os pilares do motor da otimização, Raphael propôs uma reflexão sobre o que realmente sustenta negócios no longo prazo – e sobre a cultura que precisa ser quebrada.
Ele compartilhou uma frustração recorrente: a Celere faz levantamento detalhado de quantidades, entrega planilha com 150 mil linhas totalmente rastreável e três meses depois o engenheiro da obra está levantando tudo de novo na mão. "Está arraigado que o cara da obra tem que levantar tudo de novo. Mas ele deveria receber pronto, participar com inputs, validar – não refazer do zero", avaliou.
Essa falta de processo gera dois problemas: desmotivação (quem trabalha com orçamento sabe a frustração de ficar correndo atrás do próprio rabo, sempre refazendo, nunca olhando pra frente) e perda de conhecimento (quantas vezes alguém fez um estudo que levou uma semana, saiu da empresa e aquele conhecimento evaporou?).
A solução, segundo o CEO da Celere, passa por profissionalizar a engenharia, reduzir improvisos, parar com "planilhinha" e "puxadinho". Mas, no final, o que sustenta isso tudo não é tecnologia nem processo, é consistência.
"As pessoas não compram previsibilidade. As pessoas compram reputação e credibilidade", provocou Raphael. Quem contrata a Celere não contrata porque ela dá previsibilidade, contrata porque confia no trabalho. E reputação é consequência de consistência. Não adianta fazer uma obra bem feita e a próxima meia-boca. Demora muito para criar credibilidade, mas perde na próxima se não fizer bem feito.
A tríade pré-obra, tecnologia e dados não garante previsibilidade sozinha, mas, sem ela, é praticamente impossível ter controle real. Se você levanta quantitativo errado, orça errado, planeja errado, vai passar a obra inteira justificando desvios porque não teve trabalho bem feito antes da obra começar.
A Celere trabalha há mais de 10 anos ajudando incorporadoras e construtoras a construírem essa fundação. Nossa metodologia une:
- Orçamento paramétrico detalhado que considera particularidades reais (área, padrão, subsolo, sistema construtivo).
- Levantamento de quantidades granular com rastreabilidade completa.
- Tecnologia BIM 5D para estruturar dados e eliminar retrabalho.
- Governança de engenharia com única fonte de verdade.
- Banco de dados robusto (650 empreendimentos, R$ 26 bilhões) para calibrar pressupostos.
Quer começar a profissionalizar a gestão de custos e ter previsibilidade real?
Entre em contato e descubra como podemos ajudá-lo a construir a fundação que sustenta lucros consistentes.